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A Filha do Rei


Virtude:


A filha do rei é cheia de virtudes. Ela granjeia direitos primazes na seara da honestidade. Ela sofre: vive. Não perde a auto-estima mesmo sabendo que não é dela os conceitos alheios, apenas os sorvem, sem verter jamais uma lágrima.


Vício:


A filha do rei angaria vícios. Anseia por aquilo que a Fortuna e o Destino num só golpe lhe agraciou e lhe roubou. Macula, infesta, defenestra e ignora a vontade do ser, enquanto ser reprodutor. Desperta ânimos de ódio, angústia e pavor, revertendo-os pela culpa e a insolência da reinvidicação.


Virtude:


A filha do rei é desamparada, tem uma mãe que é honrada e mais nobreza que a riqueza do rei; tem a face, a fala, a cor, o gene, a pele, o jeito, o cabelo, o sorriso, a origem da filha de um rei. Ela é guerreira, fez-se guerreira, mesmo com treze contestações que doíam mais que a célebre orfandade.


Vício:


A filha do rei é ingrata. Permuta o amor com a ambição. Ignora a necessidade do afeto e do contato, quer burlar as leis naturais e sociais confundido pai com paternidade. Sonha com a luxúria, imagina holofotes mesmo embaixo do sol. Quer a glória imerecida, tem apego à notoriedade.


Virtude:


A filha do rei é fruto do fortuito, dos hormônios sem freio. Sua culpa não é a querência de um genitor, mas sim a querência de ter nascido: nascimento implica querer. “às vezes, não nascer, é a maior de todas as dádivas” (Sófocles).



Vício:


A filha do rei foi negligente consigo. Às vezes se morre por temor da morte, ou por negligenciar a morte.



Virtude:


A filha do rei deu descanso a si e ao seu para sempre; como os tiranos da História incomodou quando viva e deu alívio quando morreu. Ela não carece mais da nobreza, não carece mais de pedir, não carece de um telefonema, não carece mais de vida, não carece de flores para adornar o seu esquife. A filha do rei deixou órfão um rei sem realeza.



“O resto é silêncio”. (Hamlet)





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