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A Dama de Ferro (ou Gelatina?)

A Dama de Ferro poderia também ser alcunhado como Dama de Gelatina, tal é a forma como a diretora (de teatro) Phyllida Lloyd apresenta o maior petardo político masculino do século XX, apesar de feminino: a hoje baronesa Margaret Thatcher.


Meryl Streep, norte-americana, encarna a Primeira Ministra tal qual Jamie Foxx se atreveu ao representar Ray Charles --- não são interpretações, são reencarnações. Às vezes parece que não é filme, e sim documentário. O filme peca por tentar humanizar demais, até irritar, uma figura que tinha nas enérgicas emanações sua marca registrada. Retratada como uma vovó vencida pela senilidade, que dialoga com o marido falecido, as imagens e o esquema de retratá-la alquebrada pela demência é desnecessário à ficção a que o filme se propõe e à realidade, que já existe, e por isso é escusado reavivá-la.


Falta ainda ao filme um “diálogo” maior com seu maior apoiador no exterior, o ator canastrão Ronald Reagan, espécie de suporte às violentas, mas necessárias ações da ministra à frente do governo duma Inglaterra à beira do colapso. Sobre a sua relação com a rainha? Nenhum frame.


A cinebiografia esquenta quando é mostrada a investida dela contra a pobre Argentina pelas ilhas Falklands/Malvinas, abençoado e providencial conflito que serviu como plataforma de campanha para sua primeira reeleição. Diego Maradona vingaria a pátria platina quatro anos depois, na Copa do México, usando Deus como autor de um tento contra a Inglaterra, ferida de guerra.


O filme também se excede nas obviedades, tal qual a de querer fixar no espectador que APENAS ela era mulher no mar de homens a participar da política britânica, como na cena na rés do chão onde apenas sapatos masculinos sapateavam rumo ao Parlamento, exceto um rosa, feminino. Pareceu mais um panfleto feminista do que uma mensagem positiva, e feminismo está tão fora de moda quanto discuti-lo.


Tecnicamente prudente, é um filme que revela pouco sobre a personagem que tenta retratar, além do já sabido pelo senso comum. Numa cena em que ela desanca publicamente um assessor e, ato contínuo, solicita que todos saiam da sala, ela treme e sofre, talvez não pelo excesso e arrogância, mas por possivelmente ter se lembrado de quem realmente é. A melhor cena do filme.

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