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10 Anos: Russo


“Me diz: porque que o céu é azul? Me explica a grande fúria do mundo?”.



Há dez anos, desapareceu um Russo. Não russo de russo, mas russo por causa de ambos os Rousseau’s; de Russel também. De que matéria misteriosa são compostos os grandes espíritos? De espíritos?



Renato Manfredini Jr., a alma-guia da Legião Urbana. A mítica banda brasiliense percorre o imaginário de quem a ouviu e ainda ouve. As letras políticas de suas canções se confundem com canções de amor: “Quase acreditei na sua promessa/ e o que vejo é fome e destruição/ perdi a minha cela e a minha espada/perdi o meu castelo e minha princesa”. É uma canção-protesto; releia e encontre o Collor. Um protesto atual. E será atual daqui a 70 anos. “O meu país e sua corja de assassinos/covardes/ estupradores e ladrões”.



“Sei que faço isso pra esquecer/eu deixo a onda me acertar/ e o vento vai levando tudo embora...”. A maconha usada como anti-depressivo, como anti-vida, como anti-sofrer, anti-necessidade de algo.



Como Cazuza, ele renegava-se a si: Cazuza: “Eu vou pagar/ a conta do analista/ pra nunca mais ter que saber quem eu sou...”: Renato: “Quando tudo está perdido/ não quero mais ser/ quem eu sou...”



Renato sentia demais esse mundo, absorvia-o, contraia-o dentro de si e mesmo sendo o sentimento uma matéria assim abstrata, ela tende a explodir como tudo o que é aprisionado e tal qual a crisálida dá vida à borboleta, a explosão do seu sentir fez nascer uma constelação no extremo sul de um floco de neve: “Corri pro esconderijo/olhei pela janela/ o sol é um só/ mas quem sabe são duas manhãs?” ou: “Quem me dera ao menos uma vez/ entender como um só Deus ao mesmo tempo é três/ e seu mesmo Deus foi morto por vocês/ só maldade então deixar um Deus tão triste”.




Uma das mais belas utopias é crer nessa impossibilidade: “Quem me dera ao menos uma vez/ ter de volta todo ouro que entreguei a quem/ conseguiu me convencer/ que era prova de amizade/ se alguém levasse embora até o que eu não tinha”.



Destacava a realidade e a penúria carioca, sua natal cidade: “Em vez de luz/ tem tiroteio/no fim do túnel”. Alguns viam nos seus textos altas doses de pessimismo. Não se pode confundir realismo com pessimismo. É vedar as bocas dos canhões com rosas. Ele tinha o antídoto feito com a essência da contradição humana: “Quando tudo está perdido/ sempre existe uma luz”.



Renato é desses seres maiores que o espaço que ocupam na breve centelha da vida. Um único Renato faz preencher a lacuna de muita gente ruinosa. E ele, criador de mitos e símbolos, cometeu seu maior deslize quando desistiu de viver, mas talvez eu fale isso movido por egoísmo, vai que ele não pudesse mais conter o mundo em si? Um amigo genial dizia que nada lhe tirava a suspeita de que a gente não morre de moléstia ou de desastre, mas que o desastre e a moléstia vem quando é preciso morrer.



“Se lembra quando a gente/chegou um dia a acreditar/ que tudo era pra sempre/sem saber/ que pra sempre/ sempre acaba”. Tem razão meu caro amigo Russo, dá um dó imenso ver a gente acabar antes das coisas e deixá-las todas aí a cintilar em mãos alheias, a solução então é zombar delas e nos persuadir de que na verdade não estamos deixando nada, pois na verdade “estamos indo/ de volta pra casa...”.





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