• ABM

1 Voto = 1 Cargo

Os encantos da democracia não só encantam como seduzem; de logo, me vem à mente os versos de John Milton, no seu duplamente gigante Paraíso Perdido:



Oxalá um pagão eu fosse


Por velhas ilusões acalentado.


A paisagem seria bem mais doce


E o mundo menos desolado.



Pau d´Arco, no Piauí não guarda nenhuma semelhança nem com Milton nem com paraísos, achados ou perdidos. Mas é bastante provável que a cidadela piauiense alcance senão a celebridade do poema épico, ao menos a longevidade dele; o futuro falará de Pau D´arco daqui zil anos. Depois deste verniz poético aqui usado para açular a matéria, vamos ao fato.



A digníssima vereadora Carmem Lúcia, do PSB- PI, venceu uma eleição tendo angariado um (1, em arábico/indiano, I, em romano) voto. Não releia; ela obteve um voto. E da mãe. O marido e ela própria não votaram nela; daí fortalece-se a idéia de que a mãe é o maior patrimônio cultural que a civilização pôde criar, maior até que a necessidade de propinar. Virará verbo o substantivo. Viva e verá.



A mágica que tornou possível o acesso da vereadora à titularidade do cargo foi que o titular teve o mandato cassado por infidelidade partidária; o segundo suplente, cunhado de Lúcia, fez a gentileza de morrer num acidente de automóvel, esse pontual e amável assassino, fato que a alçou à cadeira da câmara municipal da cidade de 3,5 mil habitantes.



O que anima a termos um pedaço de espanto e outro de angústia é que nem tudo na vida se faz pela matemática pura; às vezes é preciso mais que números para vencer um perigo, o perigo da obscuridade, por exemplo. A campanha de Lúcia custou exíguos mil reais; com essa grana se compra um fígado, uma alça de bolsa de grife, oito policiais rodoviários (dependendo do câmbio) e é possível que, pesquisando um pouco, compre-se também uma namorada interina. Das de grife.



Lúcia teve a fortuna de comprar um mandato. Suspeito que se ela mesma não votou em sim, esta singular ocorrência lhe garante uma dose de probidade só vista em anedotas de convento. Nem a constituição de Atenas, nem o gênio de Péricles, previram a possibilidade de um candidato ter voto zero e ainda assim se eleger. Se sua amada mãe, num insaite teve a categoria de lembrar do nome da filha não creia que foi por instinto maternal que tanto salva, mas para salvar a democracia e não macular a memória de seus inventores. Naquele momento crítico do voto, quando a mãe de Lúcia, solitária na cabina, ia votar, como todo brasileiro, assim, por acaso, em sei lá eu, no Pato Donald, caiu sobre si a voz de um grego e lhe soprou o nome da filha ou se apossou do corpo dela para se garantir; não garanto os detalhes deste momento, não sei tudo o que se passa nesse mundo; feito aquele rapaz do Guimarães Rosa, tudo o que sei é que nada sei, mas que desconfio de muita coisa, desconfio, sô.





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