Eu não sabia explicar nós dois
Ela mais eu, por que eu e ela
Não conhecia poemas
Nem muitas palavras belas
Mas ela foi me levando pela mão
Íamos tontos os dois assim ao léu
Ríamos, chorávamos sem razão
Hoje, lembrando-me dela
Me vendo nos olhos dela
Sei que o que tinha de ser se deu:
Porque era ela
Porque era eu
Chico Buarque
Essa canção nasceu duma historinha, algo popular na França, entre dois escritores que eram muito amigos; um deles morreu jovem. Perguntaram ao que sobreviveu:
- Por que você gosta dele?
- Porque era ele e porque era eu.
Simples assim. O gostar não carece de apetrechos. Ama-se o amor assim, de viés, gente enviesada até. Não sei onde diacho li que a gente não ama a pessoa por ela gostar de Caetano, ter cheiro de neném, abrir a porta do carro, mandar flores, ser carinhosa, etc.; eu mesmo já amei gente ordinária, como o leitor também deve ter amado. Também posso ter sido ordinário se por(des)ventura alguém me tenha amado. Nós somos “os outros”; “os outros” sempre são os vilões.
Mas é o mistério que torna o que se ama mais amável; até hoje ninguém sabe explicar porque Kafka é Kafka, ele tem tudo para ser odiado: é seco, áspero, dolorido, opressivo, sombrio; mas é amado por quem o conhece bem; talvez esteja aí a chave para se amar alguém, o conhecer bem; regra frágil advirto, uma vez que há quem ame loucamente aquilo que não se conhece bem, exceto pela casca exterior, que engana corações ávidos de paixão. Em Direito, chama-se isso de “erro de tipo”.
Quero um amor, não com o estranho sabor de fruta mordida, como queria Cazuza, mas que apenas seja sensível; pedido extravagante por óbvio: é querer demais que as pessoas sejam sensíveis em plena era dos devassos do consumismo. Excesso de sinceridade como de eloqüência, cansa, mas devo confessar: ando consumista que só. Quero agora consumir um amor e quando ele enfim chegar, dizer:
- Porque é você, porque sou eu...
Escrito por Alex Menezes às 23h58
Comentários