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Ensaio Sobre o Desejo

Quando o demiurgo francês e universal Blaise Pascal cunhou no papel o ultra-célebre


O coração têm razões que a própria razão desconhece


ele praticamente isolou o sentir do seu íntimo amigo pensar.


A razão que muitas vezes nos faz padecer de um mal que acomete os espíritos desde a invenção dos espíritos é a mais sutil armadilha da mente.


O que nos move a cometer atos que a razão em si não aprova, mas não se sabe que insondável fluído carnal, que flerta com o proibido, nos leva, às vezes atormentado pela impiedosa culpa, a praticar, trocando-se o prazer momentâneo pela voluptuosa aflição, temperada com a acidez da agonia, a sofrer; crendo-se fielmente que corpo e alma são distintos, um produz a ação e a outra paga seus efeitos quase sempre atordoantes.


É o que nos faz especiais, diferentes, na cadeia animal. O conflito entre sentir e desejar nos projeta a espaços hostis, nos deixando isolados do ambiente exterior, momento crítico que parecemos estar infinitamente sozinhos.


Sem aquele amparo maternal, o desejo é um labirinto de dardos que nos persegue e dele não conseguimos escapar, porque no ápice do desejo, quando não cedemos a ele, não há refúgio.


O psicanalista ítalo-brasileiro (em rara perícia no trato com o ciúme e a traição) Contardo Caligaris escreveu “que a maior traição é a traição do próprio desejo da gente”; tal pensamento, de arte e engenho sublime, nos empareda contra o nosso outro eu que é exterior, espécie de entidade diversa da consciência que nos examina continuamente com expressa severidade porque ela é o próprio ser; é o software do hardware; já este eu avulso nos cativa e entende, creio-o idôneo não por ser nosso reflexo e por isso parcial, mas por que o entendo solidário à vontade que o mundo e a condição finita do homem, sempre sujeito à natureza, não raro nos nega, oprimindo, afastando, como se não fossemos um ser essencialmente em estreito estado de variação.


A limitação do desejo seja-o carnal ou espiritual antes de comprimir expande a infinita e instigante pretensão de nos conhecermos a nós próprios, é como um desafio imposto aos nossos limites, limites estes que nos impomos perpetuamente toda vez que, no afã de devorar um pedaço mais da sobremesa, ou ficar ao léu no domingo vendo a programação de domingo da TV, o Faustão, essas coisas, nos culpamos dolorosamente e se é para ser devorado pela não-culpa, melhor devorar o desejo saboreando o desejado, porque a vida não passa de um dia e baseado neste prisma sacerdotalmente demoníaco não nos é lícito consolar um desejo com uma hipótese.





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