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A Barriga Negativa

A atual moda nas academias e demais centros de excelência do Brasil é a barriga negativa. Você já ouviu falar? Eu mais ou menos. A barriga negativa é a síntese do Brasil. Não sei que artista dizia que ‘a loucura é o grotesco a sério’. Deve ser.


Imaginem o diálogo:


- Oi Marina, já viu como tá minha barriga? Tanquinho!


- Tanquinho é coisa do passado. Olha a minha: Ne-ga-ti-va.


Tantas são as coisas negativas neste mundo que não é descompreensível que um dia o negativo se transformasse num conceito positivo. Espero viver a era em que poderei me orgulhar de dizer que tenho o saldo do banco negativo. Em regra a gente diz isso aos credores e aos pastores, a alguns advogados também, vá lá.


- Jurema, minha inteligência é negativa! Sou poderosa!


“É osso”, como dizem os adolescentes. Em algumas regiões (grotões) do país há muita gente adepta deste estilo estético, essa forma de beleza negativada, imposta sem nenhum suor, exceto o da enxada e das caminhadas em busca de água barrenta. Tudo são costumes.


Oh tempora! Oh mores!, como diziam os romanos. Isso de barriga negativa é um sintoma clássico de evolução da espécie. No passado remoto, diante da escassez de comida, fazia-se necessário à preservação da espécie uma dieta frugal, igual as que têm, por exemplo, os etíopes e aquele outro povo desenvolvido, os academíopes. Todos eles cultivam o hábito do parco alimento e a prova de que sua filosofia é eficiente é a de que continuam vivos, apesar de tudo.


Depois veio a Renascença e disse que não, que isso de passar fome por capricho ou por avareza (de espírito) é um arcaísmo tolo e toca a ter mulheres robustas para insuflar as inspirações dos pintores e dos alfaiates. É claro que farejo nisto uma ação maquiavélica do capitalismo, uma vez que o linho e os tecidos em geral eram a força econômica mais pungente que havia, caso os consumidores fossem rechonchudos, tanto melhor para o lucro e para a produção, que seriam ambos, também mais robustos. Isso tem muito a ver com esta reflexão antiga, mas atual:


- Dizem-me que a casa de modas faz mais negócio que o jornal. Não admira; poucos lêem, mas todos se vestem.


Quando todo o universo se render à moda da barriga negativa, não terá chegado nem o Messias nem o Juízo Final e sim um tempo de bonança, de quebra de protocolos, de arrebatamentos, e de soluções. Senhores leitores, inauguro agora, com toda pompa, mas sem circunstância, a incrível Era Negativa. Nela não haverá nada que o preocupe e/ou aborreça; vai ser, grosso modo, mais ou menos como no tempo do absolutismo dos reis europeus, sem nenhum poder que censure seus atos. A diferença é que dessa vez, todos poderão ser monarcas.




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