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Você não morreu?




"Você não morreu?" Foi ao atender ligações de conhecidos com a inusitada pergunta que um cantor popular do Piauí, com 50 anos de carreira e que teve projeção nacional na década de 1960, ficou sabendo que havia "morrido". Ao menos é o que dizia um livro didático adotado pela Secretaria da Educação do Estado do Piauí. – fonte: Agência Folha de 31/10/07.


O Piauí é um Estado pitoresco. E não falo da malemolência da grafia de seu nome, tumultuada por vogais, belíssimo e raro exemplar do idioma “sem ossos” como diziam alguns escritores portugueses antigos. É o mais pobre Estado da federação. Alvo de chacota. O Piauí representa para o Brasil o que o Brasil representa para o mundo: quase nada. No cenário nacional ele só aparece quando vitimado por referências toscas como aquela do presidente da Philips que pregou que “se o Piauí acabasse ninguém iria perceber”.


Quero, como você, não me ater a detalhes de IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) sub-africanos do paupérrimo lugar a nordeste do Brasil; eu já conheço você. Você vem aqui todo dia, às vezes com pressa, não é rara a vez em que lê só o último parágrafo, ou pára no meio da leitura porque o telefone toca, ou o chefe chega, a criança pede colo ou peito, ou, pior, a miserável da escada que lhe eleva até aí onde está arrancou fora todo o seu fôlego e ânimo de ler; eu conheço você. Sei que quando o tema é um porre me xinga sem ternura, sem levar em conta que o que eu faço aqui não é entretenimento, mas sim provocação; e provocação como uma inábil manicure, também irrita.


Dois parágrafos de embromação depois, irei ao que interessa: a notícia do jornal.


É uma ofensa, não há dúvida. Ficaria até sem o seu fôlego caso fosse vitimado por tão fúnebre notícia, se ainda estivesse vivo para ouvi-la. O cantor piauiense (que delicia de falar!) quer um reparo financeiro para compensar o desdouro. Não se sabe, todavia, se ele irá ratear o fruto do processo que moverá contra o Estado (do Piauí!) com seus amigos, verdadeiras vítimas do funesto equívoco do órgão de educação (cataplawer!) que o manteve como morto não no registro civil, tecnicamente o que vale, mas no registro educacional, que vale tanto quanto o som produzido por uma palha que cai do coqueiro numa ilha deserta.


Levando em conta minha limitação para as artes louváveis produzidas neste Brasilzão sem nenhum deus, nunca jamais ouvi falar do Sr. Roberto Muller, cantor, segundo diz o jornal, “de grande sucesso na década de 1960” (sic). O “sic” é necessário porque não sei a que década o jornalista se refere, seria a de 19 ou a de 60? Desconfio que seja a de SESSENTA. O cantor deve ter bom senso, apesar de hoje ser dono já de 70 anos, um peso e tanto. Deveria agradecer à Secretaria de Educação e mais ainda, ao Piauí pela visibilidade. Não vou elevá-lo à condição de ingrato, não sou tão radical assim, mas já que era para tomar uma atitude visando um reparo financeiro do seu ‘algoz’ eu penso que essa de pedir dinheiro seja uma coisa moderada. Eu pleitearia logo o seqüestro de um prédio público, ainda sabendo que a Constituição Federal veda a penhora de patrimônios públicos. O que importa? Toda ação impetrada contra o governo é paga com precatórios. Precatórios são uma forma de calote dentro da lei. Leva em média 30 anos para serem pagos.


Exorto o cantor a deixar disso; com a projeção que ganhou podia se lançar no mercado de discos e mandar um recado a toda nação de que no Piauí existem sim bons artistas, bons senadores, boa gente como em toda parte do Brasil. Vou entrar agora no Google ver se acho um CD do Sr. Muller.




Escrito por Alex Menezes às 23h21


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