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VINCENT - PEÇA

Prólogo


Este monólogo em dois atos, em forma de “epístola mental”, foi escrito para investigar as agonias da alma de um artista sensível, em permanente conflito não com sua existência, mas com o ambiente descartável em que o mundo se transformou.

Vincent


Ato l

Vincent de costas para a platéia pinta um quadro (Campo de Trigo com Corvos)


Se eu tivesse elevado a minha voz desde o começo, em vez de me calar em todas as línguas do mundo…, haveria uma solução de tolerar a dor consentindo a dor.

Às vezes não sei se as imagens que pinto jorram do meu pincel ou da minha febril agonia, – que todos insistem em confundir com loucura.

Théo, por que me recriminas pelas nervosas pinceladas? Andas preocupado com as vendas? Eu estou ansioso pela posteridade, Théo! A posteridade é o lugar sagrado onde, mesmo ausente, irei me vingar dos que me infamam e me desdenham.

Que importa saber que as telas que eu pinto valem tanto ou menos quanto uma tela em branco? Uma tela virgem tem a esperança de uma poesia a ser-lhe impressa, ao passo que meus quadros são moldados em carne viva.

O futuro há de garantir o desfecho desses rabiscos, Théo, que (ouso dizer) se não são artísticos como você me faz crer, são ao menos sinceros, e queira enxergar, querido irmão, não se faz arte sem o fluído misterioso da sinceridade e é essa sinceridade que escorre além de mim…

É essa sinceridade que busco na linha tênue que divisa cada ponto de sombra e cada ponto de luz das minhas telas, meu irmão. Cada quadro que termino mesmo à noite… com essas velas que compartilham comigo da minha ânsia e derramam suas lágrimas quentes sobre a minha pele crestada… (e sacode o braço com pesar), é uma fronteira que atravesso em busca dessa sinceridade que não encontro no gênero humano e pressinto que a morte será o fim dessa ilusão.

Vincent vira para o palco, apaga as velas com vagar e suspira em silêncio, a sussurrar aumentando gradativamente a entonação:

Há um espectro que vejo em cada ambiente que antecede as figuras dos meus quadros.

Não! Não é um espectro como o de Hamlet, não é, não é não é! É um espectro que se contorce diante de mim, que dá volteios, que faz cambalhotas e eu tento agarrá-lo, sorvê-lo, mas ele só me indica o caminho rumo a uma tela branca. É lá que ele se pronuncia, me guia a lugares tão imaginosos que fariam de qualquer sonho uma mera realidade opaca e desprovida de cores, de sentidos.

Coisa torturante é sentir sem saber a origem dos sentidos.

Mas o que são os sentidos senão uma vaidade da existência? Essa existência náufraga quer me corroer, me dilacerar porque eu sou um simples homem, um homem feito de esperma e de emoção?

Cada quadro, cada superfície colérica que rasgo com meu pincel acentuam a minha ausência.

Eu me refugio na arte; é no abstrato que finjo encontrar a verdade, é lá que meu espírito fortifica suas sensações, tornando-se quase palpável, é na arte que encontro o reflexo intempestivo das aberrações humanas que pairam… pairam e ficam distorcidas; ficam brutais, porém menos dilacerantes do que nos propõe a torpe realidade… Pairam e não repousam em nenhum lugar, exceto nas mentes torturadas dos insensíveis.

(Vincent retira o capote roto e impregnado de tintas)

Nesse inglório papel de usurpador que a vida me reservou só posso mesmo pontilhar com ironias pictórias as perturbações do meu espírito, igual como a chuva faz quando soletra no solo molhado da terra palavras ternas de clamor.

Eu não sou um homem. Eu sou um grito. Eu sou uma lacuna. Sou também uma distância.

Se todos os tormentos me fazem companhia é porque sei exatamente o que fazer para abrigar a dor que todos despejam dentro de mim, e eu faço da rejeição um manifesto contra a depreciação do meu corpo vergado de pesar e de inchaço.

Não há solidão na desventura. Há uma mácula e um desespero que não abomino inteiramente porque é preciso inalar o éter da solidão para elevar o espírito acima das pequenezas mundanas.

A pulsação doentia que emerge da sanidade que tento a todo custo encontrar se revela nos tons amarelos e violáceos dos meus quadros.

Quando o enxofre abre caminho para penetrar nessas cores vibrantes não sou mais eu quem pinto, não sou mais eu que movo os pinceis e sim as hemorragias provindas do calabouço da minha alucinação.

Diante da perfeição todo homem é um contrapeso. Diante da beleza o homem se refresca cinicamente no que lhe é impossível discernir e é nela que se expandem as grandes cruezas, as grandes violências, é o encontro fatídico do ser diante do pudor que não atrai nada, exceto a destruição.

Eu me equilibro. Sim, eu me equilibro sorrateiramente nesse marasmo tempestuoso. Nesses mares de águas turvas e soníferas é que navega minha criatividade.

Minha força inspiradora é a tempestade.

Porque eu simplesmente não desafogo as amarguras que transbordo nos meus amigos fiéis que toleram as minhas teimas, nos pintores muito mais dignos e honestos do que eu que sou um rato indecente em meio a uma matilha faminta, porque as cargas que transporto em meu ombro ferido eu esmago com um suspiro!

(Vincent se retrai, e olha o sol)

Lanterna de Apolo, luz amolecida que me aquece e me faz sentir vivo.

A sensação de viver é para mim muito além de hostil; é de tua lavra que saem meus melhores trabalhos. Essa luz que esse naco de Europa abençoa é rígida como uma lamparina adormecida. Faço do sol o amuleto incansável do meu espírito.

A luz inquieta me guia rumo a uma riqueza que transborda em cores violentamente sutis. Elas parecem irradiar uma prece na procissão mágica de um arco-íris que se costura dentro de um funil.

Os que me cercam sabem que eu não economizo coragem.

Eu não me entrego, nego o movimento, se preciso for, mas não economizo coragem.

Eu luto ferrenhamente contra todos os meus instintos destrutivos, me uno a todas as sutilezas para manter minha sanidade que é lânguida e tênue ao mesmo tempo, união improvável, mas necessária.

Escondendo o rosto com a palheta, Vincent dispara:

É a prece que me recolhe ao escuro ventre de onde eu deveria ter saído urgentemente, antes de completar o ciclo, para nunca mais ter de voltar a ele quando as crises e as cóleras me rebaixam ao mais indistinto ponto da existência.

Ato II

Vincent desabotoa o capote:

Não posso ser 100% cólera. Há dentro de mim nalgum recôndito escondido um vulcão prestes a silenciar.

Poetas indesejados aderem aos influxos dos humores. Eu pareço uma mexa esculpida na superfície sombria de uma ventania. Vão temores!

Vincent toma para si um autorretrato e faz dele um espelho:

Olho meu retrato e o que vejo é um farrapo. Esses traços precários são soturnos, parece até que eu pintei uma cara que se debate dentro duma fornalha! (e atira ao chão a tela, que se parte)

Vãs comparações absurdas! Me sinto tão insolente e feroz, tão impecável diante do meu destino que não raro julgo que sou menos um homem do que um infâmia.

Tal sensação é impregnada da mais lúgubre melancolia, tão triste como ter de executar a toalete funerária da própria mãe.

Pareço uma ameaça, mas o que emana de mim é a fúria inofensiva de um passarinho.

O escárnio que vejo nos semblantes indiferentes é o mesmo que afago com lentidão desmedida.

Enquanto abre um caixote onde estão suas tintas, resmunga:

Todos imaginam ingenuamente que eu só tenho a minha agonia para lhes oferecer, canalhas! Querem me ensandecer!

(Vincent toma um tubo de tinta e o projeta sobre uma tela branca)

Eu ejaculo essa abundância!

(E esguicha freneticamente a tinta sobre a tela)

É a minha libertação! É a união da solidez bruta da tela com a maleabilidade da tinta; são delas que nascem essas propostas de arte, diabólica arte!

Eu corrijo meu caminho errante com doses de valentia!

(e passa a delirar)

Venham! Onde estão vocês? Luas e estrelas com seus núcleos incandescentes, salgueiros espetados, campos de trigos esverdeados que brotam do vazio, onde estão vocês!

(repentinamente retoma a razão e soluça sem soluçar)

Os cafajestes! São eles que me roubam os sentidos. Me perseguem, vivem dentro de garrafas de absinto.

(ergue a garrafa de absinto)

Há um mundo dentro de cada mundo seu. (e aponta para a platéia)

Eu mentalizo todos os rostos e retiro deles a essência que tempera todos os tons.

Se eu cortejo o impalpável na frenética busca por um instante de fraqueza é porque não sobrou em mim nada do que me torna humano. Parece que a arte me esgotou. Sim, ela vazou minhas veias, em vez do licor escarlate que deveria escorrer das fendas abertas no meu corpo, o que se derrama é toda a solidão.

Eu empunho os braços na certeza de um alívio e o que me sobra é um franco desatino que desaba entre mim.

Farejo, sim, igual a um cão faminto eu farejo a presença do meu destino, e diante dele eu posso tudo, até me resignar, esse modo aparente de conformismo.

Pesam sobre meus instintos as mais puras crises do cotidiano, que valsam, se acomodam e me inebriam com tamanha energia, que mais parece uma calamidade disfarçada de ventura.

Para onde vou eu não sinto.

Saio cambaleante desses tormentos, ereto em meio à tempestade como se intentasse alcançar o desequilíbrio no vácuo da oscilação.

Quando pinto, há uma pulsação descontínua que me intriga.

Tateio o ambiente, projeto as luzes, e murmuro as sílabas ocas do mistério da existência. Em que nada se explica, tudo se consome e o resto não é silêncio, é provação.

Vincent caminha de costas em direção à coxia, e fecham-se as cortinas.



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