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Vincent, os Políticos e a Dengue Carioca



Uma tela de Vincent Van Gogh, “Campo de Trigo com Corvos”, é de uma beleza avassaladoramente inquietante.


O ex-presidente do Peru, Alberto Fujimori, acusado de uma penca de crimes enquanto presidia aquela ex-nação inca simplesmente dormiu em pleno julgamento, carecendo que o juiz que presidia a sessão silvasse por duas vezes o sino para acordar o acusado que jazia em sono profundo. Quais seriam os sonhos de Fujimori é um mistério.


Não me ocorre que igual fenômeno tenha acontecido em outra parte do globo. Fujimori disputou a eleição presidencial com o intelectual e escritor consagrado, acho que até Nobel de Literatura, se não me engano, Mario Vargas Llosa. Ainda bem que Mario perdeu, seria deprimente vê-lo presidente e depois réu.


Política é feita por gente de terceira categoria. Pela escória da sociedade. Um homem de Letras, um artista, não se pode prestar a esse papel deprimente, de governar gente ingovernável. De se melar no fundo tonel fétido das hierarquias estatais. Ainda bem que Mario perdeu a eleição.


O escárnio de Fujimori para com a Justiça é a mostra da qualidade de gente que produz política profissionalmente.


Mas e a tela de Vincent com isso?


Analógica e interpretativamente é assim; a imagem nos mostra um campo de trigo; mas eu enxergo em vez do campo, as pessoas comuns e por sobre elas, em vez de corvos, símbolo do aziago, do lúgubre, do funesto, enxergo os políticos, a carcomer o organismo sadio.


Vincent, amargurado por saber que seu amado irmão Théo passava por uma crise financeira e não iria mais o ajudar, pintou este quadro em tom de melancólica despedida; suicidou-se algumas semanas após terminar a tela. É a mais mística obra do pintor, por sugerir um prenúncio de morte; trigos que parecem ondas que não levam a lugar nenhum, um céu tristemente sombrio, uma visão da solidão e da melancolia extremas.


Não tenho outra sensação ao ver o Rio de Janeiro açoitado pela dengue, e os políticos fazendo o jogo de empurra de sempre, enquanto a população sofre como sempre e morre, como nunca. Um dia quando não for necessários políticos, muitos campos de trigo vão florir por entre os corvos, asfixiando-os até o último trilar.





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