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Uma Lição de Morte




Um professor americano, ex-proprietário de 46 anos, pai de três filhos, casado, essas coisas, acadêmico, enfim, está prestes a deixar esse mundo mal, ele tem, mais precisamente, três meses de vida, tão somente. O que ele tem feito eu chamo de lição morte. Diagnosticado com câncer no pâncreas que se espalhou como a luz de um sol maligno e agora corrói seu fígado com dez tumores. Dez tumores. O melhor está por vir.


Inventei de cortar a mão esses dias, e lá se foram cinco pontos bem pregados na carne viva – de dor. Por conta da biografia que ora escrevo sobre um rapaz meio valente que vivia numa Grécia 2300 anos atrás, tenho tido intimidade com os métodos primitivos dos médicos gregos de lidarem com ferimentos graves, tições em brasa usados como cauterizadores a centímetros de pulmões, fígados, das peças sensíveis do robusto corpo humano. Quase morri de dor quando a finíssima agulha anestésica penetrou a carne ferida. Praguejei como um mau cristão. Maldisse a existência até entrar a assistente do médico que me atendia. Trazia consigo um vasilhame com um líquido indeciso entre o vermelho e o âmbar-cor-de-nojo.


- Dr. Marco, essa é a urina daquele paciente de 75 anos, que está com câncer de próstata, ele ta vomitando sangue e ta saindo pus do...


Revi meu conceito de sofrimento como num passe sem mágica, mas de realismo e sussurrei para o médico: “E eu que achei que tinha um problema”. O professor americano é heróico na sua agonia. Eu, se não fosse esse fraco, se não fosse esse vazio, se eu não fosse o que sou, gostaria de ser esse professor. Veja o que faz o professor não obstante a peia, inobstante esse mal cancerígeno que é como uma rinha dentro das células sadias, ele é, ou parece ser mais feliz e conformado com seu destino do que eu, ou do que o sujeito que sentou, em pé, ao meu lado no metrô. Ele diz que suporta a doença com franqueza e sem auto-indulgência. Difícil saber se é verdade, mas parecer ser forte em igual situação é um raro caso em que a nobreza usa como instrumento a fraude para se anunciar.


Como professor, dá palestras na Universidade em que leciona; deu a última por esses dias. Igual ao filme “Minha Vida” em que Michael Keaton faz o papel de um paciente terminal, o professor gravará vídeos para os filhos. Tarefa mui difícil e que ele deverá executar com louvor. “Se eu não pareço tão deprimido quanto deveria, desculpem desapontá-los", disse ele na palestra e depois: "Os exames mostram cerca de dez tumores em meu fígado. Os médicos me disseram que tenho de três a seis meses de saúde razoável. Isso foi há um mês. Portanto, façam as contas". O seu bom humor não o salvará da morte, mas da decadência física e mental que atinge pessoas em estágio terminal. A doença, constrangida, deve se sentir injuriada por esse derradeiro escárnio.


Escrito por Alex Menezes às 00h23



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