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Traição à Moda Moderna

Acabei de aprender que Arthur C. Clark, criador do clássico 2001 Uma Odisséia no Espaço faleceu aos 90 anos. Ao lado de Stanley Kubrick, ambos escreveram o roteiro que se tornou um divisor de águas no cinema e na história da ficção científica. Uma perda memorável.


Todavia, a notícia de maior estrídulo não pode ser outra senão a confissão assaz pública do novo governador de Nova Iorque, que substituiu o então titular do cargo, o insaciável Eliot Spitzer, flagrado com prostitutas... Para muito espanto meu, e um pouquinho seu, David Paterson anunciou que também traiu a mulher e mais espetacular, foi traído por ela.


A evolução dos tempos sintetiza e mimetiza os espíritos. Para a conservadora sociedade do norte da América lhe é mais caro um deslize conjugal do que um desvio de conduta administrativa.


Fica evidente que o emérito governador, que é cego, não fez o anúncio por exceder na lisura, cultivar o estranho hábito de confessar o inconfessável por mera natureza cordata, mas sim porque a imprensa já lhe cutucava os calcanhares com suspeitas de que ele pulou a cerca, expressão mais antiquada; não há cercas na urbanidade moderna. O mais próximo de uma cerca que observo divisando os leitos conjugais é a lascívia, substrato mais antigo que as cercas, mas que se pode violar sem um salto físico, só moral.


Fico intrigado com essas modernidades. Quase aborrecido. Tudo são fazes. Fazes assim, com z. Eles fazem tantas coisas novas que chacoalham nossa noção de mundo; pelo menos a minha. Trair, contar em público, perdoar, continuar casado, mantendo o status e, no caso dele, o poder, traz muito mais felicidade, mais sentido, et coeterva.


Na letra de “Atrás da Porta” há uma coisa assim, “Dei pra maldizer o nosso lar/ pra sujar teu nome, te humilhar/ e me vingar a qualquer preço/ te adorando pelo avesso...”.


Uma vírgula, e toda a métrica da coisa se desfaz.


“Dei, pra maldizer o nosso lar...”.


A vingança na mesma moeda talvez não seja o melhor modo de reparar uma traição, conservar um casamento; decerto é muito popular entre os que traem. Sei não. Arthur Clark anteviu muita inovação tecnológica. Ele só não previu a tecnologia da mente humana, que se reinventa a cada geração e a cada adultério também.





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