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Tapioca Nestlé

"Gostosa quentinha quem vai/ tapioca/ o pregão abre o dia...”



Como alguns sabem e a outros não interessa, estudo à noite. E a vida de quem estuda à noite e trabalha de dia, não é fácil. Ainda mais se o estudante em questão for um reclamildo feito eu. Estudantes precisam comer. Na porta da escola se vende de quase tudo. Um estudante faminto come de tudo: pedra, pau, papel, pimenta, polietileno, e até pão.



A fome às vezes causa miragem. Certa feita, olhei uma silhueta ao lado da barraca do pastel. Uma linda silhueta, meio assim misturada com a sombra. Tinha o jeito de uma boneca, cabelo de uma boneca, os olhos de uma boneca, a cintura fina, feito boneca e era efetivamente uma boneca, da filha do pasteleiro.



O tapioqueiro da minha escola pasmem, vende tapiocas. Fiz amizade com ele, gosto dessa coisa démodé de fazer amizades. Meses depois, a amizade solidificada:



- Quantas tapiocas você vende por dia aqui?


- 28. 30. (30 quando eu vou, supus)


- É pouco. Pode vender mais.


- O cara do milho vende 150 milhos. Milho a turma gosta mais.



Venderia a nova espécie “milhorcêgo” o cara do milho? Talvez não. Isso de inventar espécies implica pesquisa científica, pesquisa científica pede cientistas, falar de cientista dá processo bravo. Vender essas espécies então, deve dar morte certa.





O erro para a baixa venda estava na assepsia e na falta de marketing. Para rechear a iguaria, ele usava leite condensado, leite condensado, provém da vaca que come fruta-do-conde, ouvi dizer.



O tubo ex-branco que ele usava para derramar o leite condensado na tapioca era algo sebento, indeciso entre um cinza-gordura e um preto-porquinho, mas estudantes, como os bichos, não comem com os olhos e sim com a necessidade de acudir os roncos do estômago. O estômago dos estudantes aliás (tiro por mim) é revestido com titânio. É o mais poderoso estômago do mundo. Deus, ao criar o avestruz, se insipirou no estômago do estudante. Vale um estudo científico...



- Jogue fora esse tubo. Use outro leite condensado. Use Leite Moça, da Nestlé. E deixe a lata à mostra. Vai aumentar suas vendas.



- Ôxente! E é, é? – disse ele denunciando sua origem do sul; do sul de Pernambuco.



- E é.



Idéia aceita, uma semana depois, meu bom amigo e conterrâneo já vendia 70 tapiocas por dia. Simples questão de marketing. Tudo é imagem. Você conhece você confia. Dedicação total a você.



Pensei em bolar um slogan criativo e inédito para ele, algo bem original como: “Tapioca, nem parece Tapioca”. Mas, como sou um amigo previdente, achei que ele estava feliz com suas 70 tapiocas/dia. Um novo súbito aumento nas suas vendas poderia atrapalhar sua serenidade e eu corria o risco de perder um amigo.

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