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Tabaco Não Mata

De todas as formas de morrer, aquela que os fumantes adotam é a mais filosófica, charmosa e financeiramente mais sedutora já criada pela demência que viceja nas mentes. O cigarro tem tanta filosofia agregada que fica difícil emparedá-lo; tentar coibi-lo com as armas convencionais com que se combate um inimigo mortal tem efeito inócuo para não dizer irrisório que é um vocábulo mais potente do que o inócuo inócuo.


Agora, para engrossar a fileira dos defensores do uso prazeroso do tabaco e seu aditivo viciante, a nicotina, um estudo britânico descobriu que um medicamento anti-fumo (!!) da Pfizer pode matar. Cataplower!


http://www1.folha.uol.com.br/folha/ciencia/ult306u459156.shtml


As melhores ironias são aquelas que estimulam as partes internas do nosso organismo, fazendo-o regredir às datas infantis em que ríamos das menos engraçadas tragédias que acometiam os lombos alheios.


O cigarro é como aquele verso da música do Caetano, “Janelas Abertas”:



“Sim/ eu poderia em cada quarto rever a mobília/ em cada uma matar um membro da família/ Até que a plenitude e a morte coincidissem um dia/ o que aconteceria de qualquer jeito/ Mas eu prefiro abrir as janelas pra que entrem todos os insetos”.


Não é uma bela peça de defesa a tabagistas e demais gentes que apreciam outras drogas menos sutis? Usei este argumento para afugentar, numa conferência, um professor de teologia que não entendia porque eu defendia a biografia de Alexandre Magno, pois ele me dizia que o gênio nada fez além de matar um monte de gente. E esse monte de gente não ia morrer de qualquer jeito? Bem aventurados aqueles que escolhem o modo de morrer, como os fumantes, ou os que morrem pelas mãos de um visionário, que não fumava...


Enfim, à matéria.


O ceitil – ceitil, devo confessar, descobri-o em Shakespeare, lendo “A Tempestade” – ‘Não dão os ingleses um ceitil para auxiliar um aleijado, mas darão dez para ver um índio morto’ – a partir daí, com a curiosidade infantil que me move, fui entender o que é um ceitil e é uma antiga unidade monetária portuguesa tão ínfima que virou adjetivo para “coisa insignificante”, “irrisória” e observe como a leitura duma peça pode influenciar numa crônica, nunca numa relação inter-pessoal. Do nada, resolvi adotar o ceitil, li a palavra, apreciei a combinação o exotismo de sua combinação o c, t e o l, que sugere cintilante cri que ela merecia uma divulgação moderna e cá a enfio; é claro que ela, apesar desse aporte, não será tão popular quanto as músicas sertanejas, mas se nem tudo são flores neste mundo, também não são apenas espinhos.


O ceitil da descoberta do remédio anti-tabaco que mata é como o adágio de Shakespeare; paga-se caro para morrer lentamente com o cigarro e quando se busca uma cura paga-se com a vida que atualmente, como vemos nos noticiários, vale bem menos que um ceitil.


Eu fui abençoado com o raro dom de me divertir com pouco, sorrir quando o caso pede choro e outras excentricidades menos pungentes; tanto é que quando li a reportagem controlei o riso não por apatia ou vingança pelo sucesso da mediocridade das campanhas políticas, etc; ri porque compreendi que vivo numa era caótica em que sexólogas, em nome do poder, traem suas convicções e insuflam a homofobia imaginando votos, remédios feitos para curar matam...




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