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Sócrates, Craque e Doutor



Calcanhar de Sócrates/gogó de cantor!/só craque só craque só craque/só craque e doutor!”


E lá ia o doutor, depois de ser esquecido em 1978, ser capitão na mais mágica de todas as seleções, a de 1982, a única que verteu a alquimia de vencer apesar de perder.


E pelos campos de Barcelona desfilou o doutor, seu estilo intacto e ereto, misto de ema e torre, desferindo calcanhares e elegâncias pelas Espanhas espantadas.


Sócrates tinha um calcanhar metafísico – de Aquiles -, que não soube administrar sem entornar.


Seu nome lá de filósofo era tão improvável para o futebol quanto sua biografia de médico e atleta, qual atleta!, tudo, menos atleta era; antes um exímio peladeiro, que não treinava, repetir gestos só no tragar, e de novo apesar, apesar de doutor.


Raros são os peladeiros que dão certo fora os fora-de-série.


Ele praticava uma coisa muito parecida com o foot Ball criado pelos ingleses, seu jeitão titubeante de conduzir a bola servia mais para confundir do que para avançar, e mesmo quando driblava, como no gol espetacular que empatou o jogo contra a União Soviética, parecia inclinado a estar parando, ludibriando com imobilidade.


E Sócrates aliava o irrecomendável com a performance, façanha tão maior quanto a de ser um ícone de uma torcida ensandecida pelos seus símbolos sagrados, e o jogador que enverga esse tipo de manto, é o mais instável de todos os sacramentos, e no caso dele doutor, só ele para unir a boemia com a idolatria.


Mas eis que como num toque de trás inesperado, Sócrates insistiu em ir-se embora com a precocidade da morte, afinal a morte é sempre precoce para os bons.


Vai lá doutor, sem você vai ser mais difícil ganhar a Copa de 82, que ainda sonhamos em ganhar; li que Dino Zoff, arqueiro da seleção italiana que derrotou o time encantado, lhe enviou uma mensagem pós morten “de capitão para capitão, sentiremos saudade”, se ele ao menos tivesse deixado entrar aquela sua cabeçada no último minuto daquele fatídico jogo após escorar uma falta batida pelo Éder… quem sabe eu e o mundo perdoaríamos o italiano.


“Telê um fio de esperança/de velho moço e criança/unindo os corações/ e assim do mundo seremos/seremos os campeões!”


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