• ABM

Risoto de Índio ao Molho de Galinha

- Ei cabra, que é isso que tu ta levando aí no saco?


- Uns franguinho.


- Que franguinho o quê malandrage, onde tu roubou isso aí?


- Não roubei não seu polícia, peguei os bichinho pra acabar de criar.


- (gargalhada)


- É verdade, achei na encruzilhada de Santa Izildinha, é verdade!


- Fica quieto sujeito, vamo pra DP – (barulhos de pancadas)


- Não seu dôtô, não sou ladrão não. (mais camaçada de pau)



Deve ter sido mais ou menos assim que aconteceu o episódio na cidade de Rincão, quando um rapaz foi preso por supostamente ter furtado/roubado cinco galináceos. Ficou preso. Apanhou às pencas. E foi depositado numa cela com ladrões, traficantes e estupradores de verdade; era o seu ingresso para a pós-graduação no mundo do crime.



Os arrozeiros do norte do Brasil andam aborrecidos com os índios porque os índios não querem liberar suas terras para o desmatamento e posterior plantio do grão. O Ministro do STF Marco Aurélio Melo disse dar razão aos arrozeiros porque, palavras suas, “se fosse aquiescer aos pedidos indígenas teria de ceder minha cidade maravilhosa”, vulgo Rio de Janeiro aos ex-posseiros do Brasil. Nada contra o ministro. Nem a desdita de ele ser primo de Fernando Collor e por este ter indicado aquele para o cargo na Suprema Corte, enquanto governava o país e o Esquema PC.



Eu como arroz, não como índio. Por esse rasteiro motivo não estranho o fato de eu estar ao lado dos latifundiários em desfavor dos silvícolas. Se faltarem índios, eu vivo, se faltar arroz, eu também vivo, mas com ressalvas. E se há uma coisa que me causa tremor é ter de viver com ressalvas. Já não basta o saldo bancário? A falta de uma ilha? A escassez de jóias? Tenho também de abrir mão (boca) do santo arroz por causa de meia dúzia de índios insolentes que não conhecem a necessidade do nosso estômago?



A Constituição Federal que o Ministro deveria zelar implora para que 10% do território nacional pertença aos primeiros habitantes daqui; 10% dá algo em torno de 58,1 mil km2 de terra. É terra bastante. O meu apartamento tem exíguos 58 m2; 000000,1% do que os macuxis podem usufruir sem taxas; eu não peticiono a extensão destes 58m2 de território ao síndico, espécie de ministro condominial.



O Brasil é assim, que se há de fazer? Ame-o ou ame-o. O rincaoense é apenas suspeito de ter furtado umas galinhas raquíticas e ganha uma camaçada de pau, é moído no cacete e depois jogado numa prisão fétida; índios têm suas terras violadas por inescrupulosos fazendeiros e ganham afago de ministros e demais tecnocratas que mesmo roubando e cometendo outras barbáries continuam sem serem molestados; o erro do rinconiano ladrão de penosas foi ter cometido crime de pouca monta. Tivesse roubado a Perdigão, a Sadia ou outra corporação assim, seria tratado como doutor pelo polícia que o prendeu. Sem camaçada de pau; teria carinho, coberta e até algum holofote. Os brutamontes da PM jamais podiam atinar para a defesa singela do rapaz: “peguei os bichinhos pra acabar de criar”. Por Athena!



PS: alguns leitores atenciosos e cuidadosos não se esqueceram do guardador de carro da escola cujo nome eu ignorava, se chama Manuel. Não lhe perguntei se é Manuel com u ou com o. Descer a esses detalhes também já é demais.




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