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Relógio da Discórdia





O grande acontecimento da semana não se deu nas trincheiras do poder ou nas salas de cinema por conta da “estréia” do popular “Tropa de Elite”, filme do qual me eximo de tecer quaisquer comentário porque ele sairia maculado de isenção.


O apresentador de TV Luciano Huck sofreu um assalto no bairro dos Jardins em São Paulo. Teve roubado o Rolex que ganhou da esposa. Chiou barbaridade. Sendo que ele já é notícia, virou notícia da notícia, seja lá o que isso queira dizer. Ser assaltado em São Paulo não é privilégio apenas dele. Como tem voz, publicou um artigo irado na coluna “Debates/Tendências”, da Folha de São Paulo. A grita dos leitores foi imensa. Desancado, esteriotipado, Luciano foi alvo da ira dos que não aceitam o fato de um integrante da elite reclamar dalgum infortúnio. Isso de elite para cá elite para lá já encheu os pacovás.


Não tenho dúvida de que até você já se encheu; mas começo a duvidar da minha dúvida quando vejo a necessidade de um membro da elite ser obrigado a distribuir renda adulado por revólver 38 e, por esse triste efeito, todos se darem conta de que existem assaltos, violências, seus subprodutos na cidade e no país. Ele foi uma vítima de estirpe, e por esse fato não aceitou bem um fenômeno corriqueiro, quase um ente da família. Não faço piada. Semana passada, um casal foi obrigado a fazer o jantar para os bandidos que invadiram sua casa e, pela atual norma social, só se faz jantares para gente que se quer bem, como membros da família, et cetera. Troque seu cachorro por um bandido pobre, ou rico, caso você seja da elite.


A imprensa canhestra que adora (adora...) esse tipo de sandice, fez Luciano Huck falar à revista Veja e ele falou, com admirável desenvoltura, uma entrevista que, a exemplo do artigo, parece ter passado por algum revisor de texto e de idéias. Ele disse que faz a parte dele, preside uma Ong, anda nas favelas... Parece que ele é judeu; não podendo sê-lo em tempo integral, é ao menos judeu de cerimônia, de ritual, e talvez por isso não saiba do ensinamento daquele judeu-desertor Jesus Cristo que exortava os seus a não fazerem como as nações e não dar com a (mão) esquerda e já pedir com a direita; e isso do rico é o que o condena: dizer que faz isso e aquilo, para se mostrar “socialmente responsável”; se o fizesse para despertar as boas ações nos outros vá, mas o que parece é que é um modo de expiar sua vergonha por ser rico, o que não é pecado nem imoral, pelo menos em alguns casos.


Uma moça nas Minas Gerais, talvez sob a patologia do estado puerperal, jogou seu bebê recém-nascido num riacho, comovendo o país inteiro até que ele veio a falecer cinco dias depois, no hospital. Muita coisa má tem acontecido pelo mundo, provavelmente não é o relógio roubado de um rapaz famoso que irá mudar a realidade das coisas, em suma, quando já não houver mais país, quando tudo se transformar numa catástrofe homogênea e democrática, todos que se sentem constrangidos a entregar seus bens ou sua vida a bandidos nas cidades, poderão alardear que não se importam nem com a vida nem com o ouro; senhores bandidos, dia virá em que dinheiro e jóias e vidas vão dar em árvore, mais do que chuchu na cerca.




Escrito por Alex Menezes às 23h47


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