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Raul Cortês

O câncer levou Raul Cortez na noite do dia 18 de julho de 2006. Foi descortês com o cortês Raul, como tem sido descortês com dona Renata. Há exemplos positivos, como o de Ana Maria, que disse um sonoro NÃO ao mal. Essa triste doença é a nossa mácula, a nódoa que mancha o frágil gene humano. Raul venceu-o numa primeira batalha, quando se imaginava que a iria perder. O nosso maior escritor disse certa vez que quando se sofre tanto e longamente, a morte é liberdade. Mas não há prisioneiro cativo que não prefira o cárcere à morte, essa senhora obscura e eterna como a escuridão. Vá-se embora, Raul. Por mais que choremos a perda de um semelhante do porte de um Raul, que quando nasce faz crescer a humanidade e quando se vai a faz esvaziar, podemos dalguma forma nos vingar da morte reduzindo-a a um simples mistério, ou como prefere Shakespeare ao se referir a ela, esse "país misterioso do qual nenhum viajante jamais regressou".


A roda da criação não pode andar sem esmagar alguém, disse um poeta acerca da morte da própria filha, num estupendo exemplo de resignação ante o fim certo de todos nós. Perde-se o homem, ganha-se um exemplo de como enfrentar uma grande dificuldade com dignidade e coragem, com brio e honra. Os palcos, o cinema, a tevê, a cena artística nacional ficará desfalcada para sempre de um grande operário da arte, mas guardemos as lágrimas, por que chorar para quem nos fez sonhar? Continuemos o sonho de fazer da arte, praticada ou assistida, a nossa fuga da realidade que se mostra sempre perversa, façamos que o brilho de suas atuações permaneça intacto nas nossas mentes, resplandescente feito a lua que bóia e ilumina com seu lume o céu infinito; aliás, não é por acaso que, lendo ao contrário, Raul é luaR.


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