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Planeta Água





Suspeito que muito da recessão moral e cívica dessa atual humanidade tem muito a ver com o modo com que ela trata a água. Acabei de descarregar uns 5 litros de água no vaso sanitário. Usamos a água, o mais precioso elemento que existe na natureza, como transporte de urinas e dejetos. Não pode ir bem uma turma que age assim. A água atual é mais cara do que a gasolina. Um litro de água custa em qualquer bar 2 reais. Um de gasolina, 2,20. A água captada no Brasil é facílima. Jorra em fontes. O petróleo em que é transubstanciada a gasolina está a milhares de metros abaixo da superfície da terra, o que a torna onerosa e mesmo assim, com todo o processo de captura nas entranhas terrestres, do beneficiamento, do transporte, dos impostos, dos ladrões, custa apenas uns 0,20 a mais que a água. E a usamos para transportar dejetos.


A água é a grande vedete deste milênio que ainda engatinha e, como uma criança inquieta, tropeça nos móveis da casa. Tem mais cartaz do que a Britney Spears ou de algum freqüentador da revista “Caras”, “Quem”, “Istoé Gente”, “Flash”. Sem ela, diferente dos rostos turbinados de botox e vazios das revistas, não há vida. É verdade que aquilo que essas revistas mostram também não é lá muito vida, no máximo um simulacro de vida. O assunto é água, Alex, e não falar água. Por favor.


Primeiro eu suspeito; e como esse mini-mundo de Letras cujo rei somos nós é, apesar de só eu ditar as leis, democrático, chegou sua vez de suspeitar que eu só tenho o problema do problema de a água ser usada como transporte de dejetos, por lamento, não tenho ainda a solução, o que me torna um pouco ou um muito ordinário, como os profissionais das revistas de celebridade. Vá lá, até tenho uma solução disfarçada de idéia, mas ela é de tal modo extravagante que vocês podem suspeitar que eu endoidei. A suspeita da minha sanidade se converterá em certeza caso eu diga que também no passado muitas idéias extravagantes mudaram o mundo; não digo, melhor a desconfiança que a certeza.


Essa contradição tipicamente humana talvez seja a mais corrente desde que o homem começou a se multiplicar: um dos raríssimos momentos na História em que uma ordem divina foi obedecida com prazer. Civilizações do passado já usavam a água para este fim espúrio e necessário. Os aquedutos romanos lançavam esgoto no rio Tibre, que banha Roma. Nós é que não podíamos manter a tradição. Fazemos um chip pensar, um trambolho de aço se erguer nos céus; enviar sondas a bilhões de quilômetros além das fronteiras do Sistema Solar (a nave Voyager lançada em 1977 está no limiar do que se conhece do espaço), fizemos também a AK-47, a arma mais usada nas guerras que já matou mais de 100 milhões de gentes desde sua invenção nos anos 40; mas não encontramos um jeito de transportar os dejetos que produzimos (veja que ironia da natureza) com delícias.


O Aqüífero Guarani é a maior jazida de água doce do planeta. Estende-se do nordeste da Argentina e repousa sob oito estados brasileiros, corta os prados uruguaios e avança sob o sudeste do Paraguai. Não está contaminado, ainda. Sua sorte (e nossa) é que está escondido, entranhado no ventre da mãe terra; é uma entidade modesta, este aqüífero, fosse ele amostrado e exibido como o mar já teria sido expurgado, danado e emporcalhado como seu parente da superfície. Se um dia tiver coragem exponho os estudos que fiz para mudar esse eterno (?) modelo e uso da água; por enquanto vou só me indignando, resmungando coisa com coisa, perturbando e nada mais. Chega de texto, preciso ir lá fazer um xixi.






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