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Para, São Paulo





“A Cidade não mora mais em mim: Francisco, Serafim, vamos embora...”. Dia 25 de janeiro a cidade de São Paulo fará 450 e três anos. O número vai assim, algo quebrado, misturado entre letras que é para dar o tom de seu caráter cosmopolita, o caldeirão cultural, que ferve, jorra e a etc.



Meiga e brutal cidade, filho que se ama e a quem não se esgota de tudo dizer; fragmentada na sua unidade. Nela tudo se sente; calafrios e calaquentes, medo e desamparo – jamais indiferença. Abrigo de sins, sempre raro alterna os nãos, é coesa na incerteza, é um amante de partida. São Paulo é uma cidade marsupial, sua bolsa acolhe a todos.



A cidade não cresce planejada, é forjada aos acasos, às necessidades, acotovelando seus rincões. Um lugar que vai acontecendo, se elaborando, se encontrando, se achegando, se enrolando, se entroncando, feito atendente de telemarketing.



São Paulo não tem cor; é cinza no outono. As estações passam despercebidas; a primavera cai no ocaso, o verão fica na fila, o inverno é modorrento, e tal descaso, as embrutece. É feriado todo dia. Não dá tempo de parar para parar. Segunda-feira é toda feira; 5 dias de semana é sovinice: instituído o sábado-feira. Todo dia é dia útil.



Imigrantes, viadutos, rodovia, gente que rodopia, babel de sotaques rotos, caras e multidões às pencas despencando aqui e ali. Cidade impermeável, jardim de asfalto e sol, enchentes de janeiros, seus bueiros sem jasmim. São Paulo privatiza as emoções, concerta com c o que falta com s; nos concentra dentro dela, arde dia e noite, obras, expansão, cratera faz alarde.



Seu manancial produtor, locomotiva de braços nacionais, orgias de suores, e a atmosfera límpida no chão. Caiada. Cidade minha, zela por nós, para por ela selarmos em nós; altaneira, um pedaço de nós. Fora de ti, sou meramente um pedaço sem mim.







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