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Os Botões sem Blusa

Imagine o mundo atual livre de botões. Amigo: é botão para tudo. Acordo, botão para ligar a TV. Inventei de comprar uma escova dental elétrica e quando tenho pilha e ânimo, aperto-lhe o botão. Saio de casa, botão do elevador. “Os botões da blusa...”. Quem diria que os bons e famosos botões de galalite iriam ficar obsoletos, ou no mínimo desimportantes na sua importância.



Outro dia, entrei no carro de um amigo e, por calor, procurei qual louco o botão para abaixar o vidro; inspecionei o painel, o console, averigüei o volante e nada, nada do botão salvador. Desesperado de achar meu salvador, olho por acaso o tampo da porta e encontro lá pendurada, intacta, altiva, solene, uma manivela. Senti-me traído, olhei com desdém aquele aparelho arcaico como a catapulta, me obrigando a ter de me esforçar para fazer descer um vidro que me aliviasse o calor.



Chego no escritório. O elevador e seu botão metálico, lindo, redondo, projetado para impressionar, fluorescente, a cor verde a seduzir meu tatear. Encaro a porta da empresa, botões em série, feito um dado manco das outras partes, digito a senha, um trin trin trin esteriofônico me autoriza a entrada, sento-me à mesa, outra maratona. Botão do estabilizador. Botão INICIAR para começar o programa do computador; é o mesmo que uso para finalizar. Contradições de botões. Botões ficam muito tempo com a gente, pegam as manias.



Em dúvida, não sei se a melhor invenção foi a TV ou o controle remoto e seus botões mágicos. Olho agora para este teclado em que teclo essas palavras estéreis e eis um emaranhado de botões, centenas deles, jogados ao léu numa prancheta, sem os olhar, vou a teclar as letras e depois a s depois a t depois a o depois a u depois a c depois a a depois a n depois a s depois a a depois a d depois a o e vi que assim cansei o leitor, porque estou cansado.



Penso em dormir, olho o despertador, uma chusma de botões que como o oxigênio é amigo e inimigo a um só tempo, penso num mundo sem botões e quero crer que acabei de criar uma nova doença e tenho medo da abstinência dos botões. Imagino um tratamento médico, uma terapia homeopática ou alopata, ainda vai existir e ser reconhecida pelos Conselhos Regionais de Medicina, a Síndrome dos Dependentes de Botões. Toca o telefone celular, eis mais um botão a me tocar.



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