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O Suicídio






Muita gente boa já tentou escrever sobre o suicídio. Pouca coisa é mais misteriosa que o suicídio. É a penumbra da vida. Ou talvez seja só a umbra; a umbra é o centro negro do eclipse. É um tom quase professoral este que eu uso, reconheço. Faz parte do processo e da minha limitação; que se há de fazer? Na falta de um Shakespeare moderno, se contentem o que tem que é pouco, concordo, mas é gratuito.


O suicídio é um ato de coragem ou de covardia como quer o desgastado clichê? Depende da biografia do suicida. Hitler é um suicida covarde, incapaz de enfrentar seu destino e o fragor de suas ações. Van Gogh é um suicida sentimental, romântico até, consciente de que já contribuíra para tornar o mundo menos insosso e bicolor. Wittgeinstein é do tipo soberbo, aquele que torna indiferente o viver e o morrer: ignorar a vida, é um ato de perpetuar a vida. Kurt Cobain é o tradicionalista, tirou a própria vida não por ideologia ou melancolia, mas por seguir a “tradição” de seus ídolos. Getúlio Vargas é o símbolo do suicida vaidoso e precavido. Um dos mais espetaculares casos é do senador Peixoto Gomide, aquele que dá nome à chique rua de São Paulo. Ao proibir sua linda filha de se casar com um promotor (e poeta!) ambos continuaram o romance na clandestinidade, quando Gomide descobriu, matou a filha e depois se matou. Manuel Baptista Cepelos, o amante, abandonou a carreira pública, a poesia, alcoolizou-se, entrou em desespero e após vagar como indigente pelas ruas cariocas, deu cabo da vida. Um suicida de mérito esse.


Eu mesmo já pensei em tirar a vida quando afetado por desilusão amorosa. Tirar a vida do amor que fique bem claro. E mais claro ainda deve ficar o fato de que o amor a que refiro não é a pessoa amada, (senão não seria sui, mas homi) mas o Amor como ente intrínseco. Hmm...: Poderia configurar amoricídio. Mas se o amor toma conta da gente, como se a gente fosse, não é incorreto afirmar que se quer acabar com aquilo que se apoderou de si e você acaba sendo aquilo que quer aniquilar. Eita pensamento complicado; ando a ler muita filosofia barata; barata no preço, já que adquiro os livros em sebo, essa espécie de hospedaria ordinária onde há aposentos magníficos.


Albert Camus foi dos que melhor falou sobre a arte de tirar a própria vida:



"Como já passou pela cabeça de todos os homens sãos o seu próprio suicídio, poder-se-á reconhecer, sem outras explicações, que há uma ligação direta entre este sentimento e a atração pelo nada.”


Só guardo dúvida se é fascínio pelo nada que leva o homem a desistir do benemérito gratuito de saborear uma batata, ver uma lua de prata no céu, ou o sorriso de uma bela mulher quando encantada pelo seu encanto. Há de haver mais mistério dentro desse mistério, enrustido e secreto, nem que esteja no núcleo de uma fagulha.


Se é fortaleza o ato isso torna o homem ainda mais diferente dos demais animais: só ele é capaz de enjoar das coisas e abreviar a vida por querência ou por vaidade; se é fraqueza, isso o torna suscetível a, abreviando a vida, tornar potencialmente monstruosos os seus males, reais e fictícios, que matam do mesmo modo.





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