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O Sudão

Os imortais deuses gregos quando se feriam vertiam em vez do usual sangue o "licor sutil", espécie de néctar que brota das veias; tudo é apoteótico e soberbo nos gigantes; nos comuns humanos, o que escorre é o vermelho dorido sangue quando é aberta uma fenda em qualquer parte do seu corpo frágil, que não foi projetado para suportar estilhaços.


A sangria desmedida que jorra em Darfur, no Sudão é muito semelhante ao licor que os deuses mitológicos segregam; é indolor e apetecível, não para os que contribuem com as veias, por óbvio, mas para a apática comunidade internacional que vê um genocídio ser perpetrado e nada faz além de retórica e medidas burocráticas, como indiciar o tirano Omar Al-Bashir por crimes contra a humanidade crendo fielmente que ele seja humano.


O fato de milhares terem sido chacinados, mulheres estupradas às pencas, uma etnia inteira viver em permanente mobilidade em abrigos precários sempre vitimados por milícias prontas a cometer toda sorte de sevícias contra uma população indefesa e ainda assim não haver uma comoção internacional é o fato de que a pele dos sudaneses ser mais escura do que tolera a generosidade ocidental.


Em artigo brilhante, o tecnocrata e direitista Reinaldo Azevedo faz acusações à ausência de Deus no Sudão e nas demais tragédias históricas inventadas pelos homens. Azevedo questiona porque Ele não age diante do mal que aflige os miseráveis assolados pela perfídia. Diante da crueldade humana e do horror de um holocausto é fácil tributar a Deus o que ele não gerou; o homem é mau porque é mau, se Deus intervir sempre o roteiro da tragédia humana na Terra não teria o mesmo sucesso.


Que a andança dos homens pelo círculo do planeta não faz o menor sentido, isto parece claro até para os que não querem enxergar; tenta-se com filosofia, fé, religião, política e ciência descortinar os mistérios de existir e para quê existir. Não há explicação possível ou unânime, apenas especulações, teoremas. Algumas tentativas consolam, mas nem só de consolo se vive, é preciso também um pouco de explicação que seja fundada no real e no absoluto, coisas que nenhuma das físicas ou metafísicas invenções humanas pode ofertar.


O Sudão vai prosseguir firme na sua contribuição para o descrédito no humano; neste fim de semana fui assistir a um espetáculo de cultura indiana, com danças, performances musicais, e aquela profusão de cores que tanto fascina; hoje fui ver ao filme "Gomorra" adaptado do livro que denuncia o esgoto do crime organizado na Itália pelas mãos da máfia napolitana Camorra e cujo escritor é jurado de morte pelos mafiosos, como um Salman Rushdie do novo milênio. Percebem a sutileza do mundo? Uma parcela dele produz arte da mais fina estampa enquanto outra parte, para contrabalancear os sorrisos, produz desgraças ou por inveja ou para divertir os deuses gregos que devem verter algum fluido mais açucarado que o licor sutil que só é derramado quando se ferem e cá para nós, acompanhar lá de cima esse teatro ignóbil não lhes deve causar nenhum tipo de vazamento, exceto o dos humores, que não devem doer nada, só entreter.





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