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O Papa x Fé x Computador x Kasparov





Assisti um documentário saboroso no The History Channel sobre a derrota do mega enxadrista Garry Kasparov pelo supercomputador, desenvolvido pela IBM, Deep Blue em 1997. A primeira e tola questão levantada era a de que “a máquina venceu o homem”. Tolice. O que ocorreu é que, uma vez que o homem criou a máquina ele próprio venceu a si. Quando a máquina criar um homem poder-se-á dizer que ela o venceu. Mas será que máquina “venceu” o homem...?



O que mais chamou atenção foi a suspeita de fraude nas partidas que decidiram a sorte do azerbaijiano Kasparov; um humano talvez tenha manipulado o computador secretamente. Deep Blue fazia 200 milhões de cálculos por segundo, (tinha 256 processadores!) e o principal, jogava como uma espécie de Pelé cibernético, isto é, sem o empecilho das emoções que levam à glória e no mais das vezes à derrocada, e Kasparov estava sob “imensa pressão” no jogo final. O detalhe é o capital. As ações da IBM subiram 15% após a partida vencida, os lucros chegaram aos bilhões de dólares; minha dúvida é: e se o enxadrista humano, não obstante seu imenso orgulho imensamente humano, estivesse mancomunado com a companhia e tudo, como um teatro tecnológico, foi encenado para delírio de uma platéia manipulável?



Sei não. Ou sei sim. Kasparov, nascido no Azerbaijão, é hoje radicado na Rússia, vira sem mexer é preso, como na semana retrasada, pela ferrenha oposição que faz ao governo do enigmático presidente russo Vladimir Putin, ex-agente da KGB (Comitê para a Segurança do Estado, a polícia secreta da URSS) e, portanto, herdeiro ideológico da tirania soviética; Kasparov quer-lhe a cadeira. Igual fato, por mais legítimo que seja, já o coloca na berlinda. A Rússia é hoje a maior fonte de corrupção estatal do planeta, ganhando – pasmem! – do Brasil, país com excelência e Phd (com Mba) neste ramo da economia de mercado, como então o gênio matemático dele quer solapar essa engrenagem impossível de ser parada?



Daí é que nasce minha suspeita de que houve uma tramóia no jogo que mobilizou o mundo 10 anos atrás. A biografia “pós-derrota” do supercampeão pesa contra. Especulações à parte, voltemos ao que nos postergou a história, a vitória limpa da máquina sobre o homem. Homem e máquina é uma versão diminuta do embate entre Deus e Homem; poderá o homem vencer a Deus por meio da tecnologia?



Benedito XVI divulgou a encíclica spe salvi, algo como “a fé na esperança para ser salvo”, como exortou o apóstolo Paulo numa carta aos Romanos (Romanos 8:38). O papa entoa, valendo-se de exegeses regimentais, o fato de o homem substituir a fé pelo progresso (tecnológico) e assim se distanciar cada vez mais do Criador; tudo pontuado por citações a pensadores cartesianos (racionais) como o ultra-metódico filósofo alemão Immanuel Kant; (as pessoas acertavam a hora do relógio quando ele saia para passear, RIGOROSAMENTE a mesma todas as tardes) há no documento papal uma sombra a Marx e seu comunismo ateu (nunca praticado como ele sonhara) que a Igreja tanto atacou até enfim ajudar a demolir em fins do século XX; esquecendo de citar outros movimentos “etnocêntricos” como o Iluminismo francês, o papa, homem dotado de grande inteligência-cultural, percebe a encruzilhada em que se encontra a humanidade neste estágio alucinante de tecnologias cada vez mais ferozes e velozes: a perda da fé. A substituição parece inexorável. A preocupação do patriarca da instituição mais antiga do mundo faz-se necessária, é um foco delicioso para debates; só uma coisa a tecnologia não irá substituir; a astúcia dos homens que engendram derrotas para simplesmente vencer. Amanhã retomo o tema tecnologia X Fé.



PS: muitos leitores perguntam porque uso “Benedito” em vez de “Bento” como consagrou a grafia portuguesa. Benedictus, do latim, ou Beneddeto, do italiano; o simples “Bento”, torna-se liberalidade que não encontra guarida na norma culta da língua.



Curiosidade de almanaque: a palavra papa tem dois significados:


Primeiro: Cada letra corresponde a uma palavra em latim:


P etri A postoli P otestantem A ccipiens


e se traduz: o que recebe o poder do apóstolo Pedro


Segundo: é o que corresponde a união das suas primeiras sílabas e estas palavras latinas:


PA ter PA stor


que se traduzem por Pai e Pastor




Escrito por Alex Menezes às 00h03


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