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O Pássaro e o Carregador no Campo Sem Centeio

Erro a entrada para a Av. Celso Garcia e o equívoco me conduz às ruas vicinais do bairro do Brás, zona leste de São Paulo. Região de entrepostos de grãos; vejo nas ruas decadentes do lugar prédios de arquitetura outrora imponente e homens de silhuetas robustas e franzinas equilibrarem sacas de 50kg na cabeça; logo adiante, enguiça um caminhão em plena manobra, trânsito estancado. Desligo o carro, busco consolo numa revista, mas como ler se o que se destaca diante de mim é um cenário digno de uma epopéia?


Parado defronte a um armazém vejo os rostos de homens embrutecidos, feridos por aquela labuta, os pescoços grossos, como de pugilista, o suor a pingar, efeito da lida. À parede do armazém pendia uma gaiola que era o lar de um pintassilgo, ou de um tuim, ou tié-sangue, cotovia, não sei, aparece aí a desvantagem de não ser ornitólogo e só saber o nome dos pássaros por catálogo ou pelas ruas de Moema. O passarinho forcejava a escapar da gaiola, trilava, ia do leito ao poleiro, se debatia em vão em busca da fuga difícil e ao lado do bicho os homens, aparentemente livres, encarcerados por essa espécie de liberdade oblíqua que tolhe o bem-estar; o poeta Wiliam Blake chamaria isto de “tirania da natureza”, eu digo apenas que isso é a necessidade de o mundo permanecer mundo.


Enquanto um ser penava angustiadamente para o encontro da liberdade, do vastíssimo bloco de céu que se estendia sobre sua gaiola, outros seres malversavam sua existência; é possível que o pássaro, não podendo entender o que eles faziam de suas liberdades, quisesse, pela via do desespero, ensinar aos homens o que se deve fazer com a liberdade; voar por aí, fazer que o mundo faça parte de si e não o contrário, mas ele não alcança a lição que pretende orquestrar e é bem provável que a esta hora continue cativo, ironizando a demência de seus companheiros que, é mui possível, tenham um patrono comum; ao pássaro é dado o alpiste, água e um pouco de sol, sem contar as despesas com o cárcere que deve ter sido digna, aos carregadores de sacas não é dado nada disto, apenas um pouco de salário que garanta que eles continuem robustos o suficiente para amanhã sustentar na cabeça, órgão lendário feito para pensar, os quilos de sua miséria e de sua fortuna, no meio do lodo sempre fulgura uma relva, ironia criada para embotar a inquantificável torpeza e caótica delicadeza humana.





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