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O Homem que Caminha à Força



O homem que caminha à forca é calado, beira a introspecção, mas não se resigna. Ele palpita, sente os odores da morte iminente, recua o olhar, não fita os seus carrascos. Apalpa a corda argolada nos pulsos, como quem tenta tatear a luz, os fios entrelaçados, imponentes, o sinal da sua impotência. Ele conta os passos regressivamente com o intuito de transformar o último no primeiro.


O homem que caminha à forca respira a tempo curto, saboreia os últimos fragmentos de ar que entram lancinantes nos seus pulmões, lanhando os alvéolos, as lesões feitas de ar. Deseja a apneia, a apneia não vem, e ele se sente abandonado pela própria aniquilação, e calado vai, rumo à forca; imagina as pernas vagando no ar, suspensas pela extinção de vida.


O homem que caminha à forca tropeça nas próprias reminiscências a caminho do seu destino; não rumina seus crimes, é isento deles; não maldiz sua má sorte, tem consciência das atribulações que é ser vivo. O sofrimento e o flagelo vem embutidos com a dádiva e, de chofre, cobram caro o preço de existir.


O homem que caminha à forca sente a corda tesa roçar-lhe a garganta; antes da dor, sente-a comprimir a epiderme, em seguida a derme, depois a traqueia enverga, flexiona; a veia jugular interrompe o fluxo, suas extremidades internas se tocam, fechando o tráfego de oxigênio, dizimam-se as células neurais e toda essa paixão ele não sente, apenas a pressente e calcula.


O homem que caminha à forca desloca, abrupto, o corpo rumo ao cadafalso e depois recua, como se pretendesse ver morrer primeiro o espírito; é um motim da matéria contra o incorpóreo. Ele sente os poros eriçarem para dentro; a respiração ofega, a pupila dilata, o corpo ainda quer vida; faz orações heréticas como para frear o tempo --- não quer dispor do direito de ver o futuro, ali, a segundos de si.


O homem que caminhava à forca não urinou, não se desfez em excrementos, não gemeu, desdenhou do pavor; o último refúgio que encontrou foi a honra em favor da morte. Dependurado, o corpo vagueou ao sabor do vento, que soprava opaco, meio zéfiro, meio minuano; balançava para lá e para cá, nessa ordem, para lá e para cá, vazio de vida, cheio de algum pesar.






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