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O Herói e o Poder

Um super-herói reunia na sua bagagem sentimental todos os poderes que dão a esses tipos de seres uma aura estelar. Acontece que o herói não apreciava o ato da ação, do salvamento dos muitos mortais que agonizavam pelas cidades do mundo. Era interessante vê-lo entre debilitado e irascível, isso apesar dos propulsores, do dom de voar, da força esmagadora que dispunha nos braços.


Um senhor finamente vestido perguntou ao herói o porquê da entrega, da inação, e o herói não respondia, gostava de vaguear em silêncio pelas esquinas mais imundas das metrópoles. O cavalheiro o seguia continuamente, a ponto de aborrecer o herói que, esfregando as mãos no rosto como quem dissipa um pesadelo, informou ao importuno: “Não preciso de atos heroicos para ser um herói, minha leniência é que me alimenta. Se eu ficar por aí a salvar as pessoas, perco todos os meus poderes”.


“Mas que fortuna há em ter grandes poderes e não os poder usar?”, inquiriu o dândi; “Eu uso diariamente os meus poderes”. – “Mas como, se não salva ninguém?” – “Salvo diariamente”, retorquiu o de capa. “Como, se hoje mesmo duas senhoras foram trucidadas na sua frente?”


Efetivamente duas mulheres foram assassinadas na frente do herói; os bandidos gostavam do ato de carregar potenciais vítimas até as barbas dele e cometer as mais singelas barbaridades, no que o herói olhava sem reagir.


A psicologia do herói e seus motivos não estavam ao alcance do senhor que o perseguia em busca duma resposta. A serenidade com que o herói circulava pelas ruas com seu traje aerodinâmico entorpecia muitos humanos que gostariam de usufruir daquele poder; “Eu poderia fazer justiça, se fosse eu”, fantasiavam alguns.


Quando diagnosticaram no herói um sinal irreversível de depressão combinada com solidão mortal, misteriosamente os crimes foram desaparecendo da paisagem urbana --- até os de colarinho alvo. Isso se deu porque mesmo os criminosos mais temíveis nutriam alguma admiração pelo herói, ou talvez a incompreensão causava certa confusão mental nos criminosos, que eles cediam ao ímpeto natural do crime; a atitude do herói era uma espécie de elixir milagroso, e quanto mais crimes aconteciam, mais o herói era acometido por profunda melancolia.


Quando enfim todos os delitos cessaram, o herói sentiu suas energias retornarem às veias, e já não andava absorto pelos becos, sobrevoava com galhardia os rincões mais purulentos das periferias gritando em altos brados que a força nem sempre está na ação, mas se origina também na inércia.

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