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O BIBLIÔMANO - PEÇA

2008 - ABRIL


É feita a leitura do capítulo LLXXII de Memórias Póstumas de Brás Cubas, intitulado “O Bibliômano”.

“Olhai: daqui a 100 anos, um sujeito magro, amarelo, grisalho que não ama nenhuma outra coisa além dos livros, inclina-se sobre essa página a ver se lhe descobre o despropósito; lê, relê, treslê, desengonça as palavras, saca uma sílaba, depois outra, mais outra e as restantes; examina-as por dentro e por fora, por todos os lados, contra a luz, espaneja-as no joelho, lava-as, e nada; não acha o despropósito.

É um Bibliômano. Não conhece o autor; este nome Brás Cubas não vem nos dicionários biográficos. Achou o volume por acaso no pardieiro de um alfarrabista. Comprou-o por 200 réis. Indagou, pesquisou esgaravatou e veio a descobrir que é um exemplar único… Único!

Vós, que não só amais os livros, senão que padeceis a mania deles, vós sabeis mui bem o valor desta palavra, e adivinhais, portanto, as delícias do meu bibliômano. Ele rejeita a coroa das Índias, o papado, todos os museus da Itália e da Holanda se os houvesse de trocar por esse único exemplar.

O pior é o despropósito. Lá continua o homem inclinado sobre a página, com uma lente no olho direito, todo entregue à nobre e áspera função de decifrar o despropósito. Já prometeu a si mesmo escrever uma breve memória, na qual relate o achado do livro e a descoberta da sublimidade, se a houver por baixo daquela frase obscura. Ao cabo não descobre nada e contenta-se com a posse. Fecha o livro, mira-o, remira-o chega-se à janela e mostra-o ao sol. Um exemplar único. Nesse momento passa-lhe por baixo de sua casa um Lula ou um Bush a caminho do poder. Ele dá de ombros, fecha a janela, estira-se na cama e folheia o livro devagar, com amor, aos goles… Um exemplar único!”.

(Após essa leitura, o bibliômano levanta, coloca o livro sobre o criado-mudo, apaga a luz e dorme)

Primeiro Ato

Bibliômano de repente acorda num sobressalto e assustado pergunta:

- Bibliômano: Quem está aí?

- Machado: E quem aí está?

- Bibliômano: Estou armado com um cabo sem vassoura, caso não se identifique, posso…

- Machado: O que podes fazer?

- Bibliômano: Posso tomar atitudes drásticas, vamos se identifique!

- Machado: Homem, tão áspero tratamento pode tornar aborrecível minha visita, esses modos rudes!

- Bibliômano: Invade a minha e espera uma recepção calorosa? Mas… Que sotaque estranho é este?

- Machado: Sotaque é apenas uma lesão na superfície das palavras…

- Bibliômano: Se não se identificar não será apenas o seu sotaque que ficará com lesões!

- Machado: A causa de tamanha violência se deve apenas a cousas insignificantes como se identificar? Não se deve tratar assim um bom e velho amigo.

- Bibliômano: Um intruso, você quer dizer!

- Machado: Qual intruso! Estou aqui de visita.

- Bibliômano: Melhor se identificar logo, antes que eu perca a paciência e parta para a agressão!

(A luz é acesa e o bibliômano se vê diante da visita e fica pasmado)

(Machado pega os óculos pince-nez dentro do livro)

- Machado: Sabia que havia esquecido alguma cousa…

- Bibliômano: Deus do céu!Isto é um sonho?

- Machado: Sonho? Vejo que toda a tua cara é pouca para tanta estupefação.

- Bibliômano: Muito simples: Não contava com a sua visita! Isto só pode ser um sonho!

- Machado: Eu sou assim, apareço quando não me esperam. Sou como a morte e a sorte grande. O que sucede por aqui?

- Bibliômano: Eu que lhe pergunto como você sucede por aqui!

- Machado: Meu caro, porque toda essa algazarra, é apenas uma visita…

- Bibliômano: Antes fosse um rinoceronte! Assim o susto seria bem menor, entenda eu sou um fiel pecador, e os pecadores sofrem mais com uma experiência dessas!

- Machado: Custa-me dizer isto, mas por ora, enquanto eu aqui estiver, o pecado será extinto e está reabilitado tudo aquilo que se considera penoso para a alma e saboroso para o corpo.

- Bibliômano: Fico rico e resolvo meus problemas profissionais se esse momento for verdadeiro.

- Machado: Então! É resolver as cousas de um modo administrativo.

- Bibliômano: Bom, já que não tem outro jeito, vou delirar: Machado de Assis?

- Machado: Joaquim Maria, meu antenome. E o senhor como vem a se chamar?

- Bibliômano: Meu nome é uma fábula, como este diálogo inexistente!

- Machado: Inexistente?

- Bibliômano: É, ou imagina o senhor que posso conceber de modo natural tamanho devaneio?

- Machado: Devaneio?

- Bibliômano: É um hábito responder com perguntas no seu século?

- Machado: Estou no meu século.

- Bibliômano: É um delírio.

(o Bibliômano aceita apertar a mão de Machado)

- Bibliômano: Ok, ok. Se isto não é um sonho vou lhe fazer uma pergunta que até Jesus Cristo lhe faria se acaso o encontrasse no céu, mas como o céu não é lugar que bruxos costumam freqüentar…

- Machado: Que quer dizer ok ok?

- Bibliômano: Não sabe?

- Machado: Parece americanismo. Ele já invadiu o Brasil?

- Bibliômano: O Brasil ainda não, mas já invadiu o Vietnã, o Afeganistão, o Iraque, o Brasil talvez entre na agenda…

- Machado: Fala-se inglês nesses países por agora?

- Bibliômano: Não. A invasão é militar…

- Machado: Estamos em guerra?

- Bibliômano: E quando não estamos?

- Machado: Mas qual o teor da pergunta que me tens a fazer?

- Bibliômano: A pergunta é simples e direta: Bentinho traiu Capitu?

- Machado: Não seria o contrário?

- Bibliômano: É, me confundi, são os eventos dessa madrugada que me deixaram assim com as idéias embaralhadas.

- Machado: Leu o romance?

- Bibliômano: Obrigado.

- Machado: Por que me agradeces?

- Bibliômano: Não agradeci, disse que fui obrigado, do verbo obrigar; eu obrigo, tu obrigas…

- Machado: Espantoso! Obriga-se a ler neste vosso tempo?

- Bibliômano: Ah! Há pouco me disse que estava no seu século!

- Machado: Há um tempo paralelo entre eu e tu.

- Bibliômano: Impossível!

- Machado: Aquieta-te!

(Machado o interrompe com um movimento enérgico)

- Bibliômano: Mas então, traiu ou não traiu?

- Machado: Vamos fazer um acordo. Olhe, acordo entre cavalheiros… Mas antes, uma cousa me intriga profundamente; se aqui estou eu na tua frente, a falar o teu idioma, e não obstante tua pouca fé, parece que tu me entendes, poderias naturalmente fazer-me uma multidão de outras perguntas, querer saber por exemplo como é lá no outro lado do mistério, qual e como é o processo de transição e me perguntas sobre cousa tão ínfima…?

- Bibliômano: Vai que é porque também eu sou ínfimo e frágil de idéias…

- Machado: Frágil de idéias…

- Bibliômano: Lamento.

- Machado: Podemos fazer uma permuta.

- Bibliômano: Pois então!

- Machado: Mostras-me como desvendar este tempo; quero tatear as novidades todas, perscrutar a produção da inteligência humana, o que se passou desde que eu abdiquei da vida até a presente data; me contes tudo, pormenores, cousas grandiosas se meu nome sobreviveu aos séculos, et cetera.

- Bibliômano: Sobreviver, sobreviver, não é o termo exato, uma ou duas pessoas ainda falam do senhor vez por outra…

- Machado: Uma ou duas?

- Bibliômano: Brincadeira. Mas a troca é injusta; darei ao senhor um panorama histórico do tempo, e o senhor vai me dar em troca apenas a solução de um adultério literário?

- Machado: O que dizem de Capitu?

- Bibliômano: Ah! Acham que ela o traiu, quer dizer, traiu o Bentinho, que era uma adúltera talentosa, outros dizem que não, que o Bentinho exagerou; dizem às más línguas que o Bentinho tinha ciúmes mesmo era do Escobar e não da Capitu…

- Machado: Explica-te.

- Bibliômano: Alguns dizem que… Melhor não falar, pode pegar mal…

- Machado: Diga!

- Bibliômano: Que o Bentinho era apaixonado pelo Escobar!

- Machado: Ah! Notável! Fabulosa conjectura!

- Bibliômano: Também dizem que o senhor estava à frente de Freud na tentativa de desvendar os mistérios da alma humana, até da feminina.

- Machado: Froide?

- Bibliômano: O pai da psicanálise.

- Machado: Psicanálise…

- Bibliômano: E então o que me diz?

- Machado: Primeiro a decifração do tempo, depois, Capitu.

(sentam-se no sofá, Machado fala em tom de poética ironia)

- Machado: Um sofá! Mais belo símbolo de preguiça outro não há!

- Bibliômano: Bem, sobre o que gostaria de conversar? Adianto que não gostaria de falar sobre temas polêmicos…

- Machado: Podemos começar então discutindo a origem de Deus.

- Bibliômano: Isso só pode ser um pesadelo… Se quer mesmo saber, muitas coisas más aconteceram…

- Machado: Não há mal que não traga um pouco de bem, e por isso o mal é útil; muita vez indispensável, alguma vez delicioso…

- Bibliômano: Houve duas deliciosas guerras mundiais.

- Machado: Quantos mortos?

- Bibliômano: Uns setenta, oitenta milhões.

- Machado: Que é que você me está dizendo? Será possível ao homem vencer o homem e superar o próprio mal? Oitenta milhões! E eu a crer que a Guerra da Criméia tinha sido uma calamidade.

- Bibliômano: Calma, tem mais coisas divertidas; Hiroshima e Nagasaki, o crash na bolsa de Nova York, Che Guevara, Kennedy e Vietnã, Golpe de 64, Crise do Petróleo, Guerra Fria, ascensão e queda do Muro de Berlim, John Lennon, colapso do Comunismo, 11 de Setembro, Tiradentes, Frei Caneca…

- Machado: Tiradentes e Frei Caneca foram antes de mim!

- Bibliômano: Era só para testar sua memória.

- Machado: Só tragédia?

- Bibliômano: Não tenho culpa.

- Machado: Parece que as páginas da História foram escritas por Shakespeare!

- Bibliômano: Ele não poderia criar nada pior que a realidade, presumo…

- Machado: Mas e as cousas boas?

- Bibliômano: Coisas boas? A medicina tem feito milagres. Mas só para poucos com muito dinheiro; há abundância de proteínas nos alimentos, mas só para os já bem alimentados, e uma próspera indústria da riqueza, mas isso é para poucos.

- Machado: Muitos gordos no mundo?

- Bibliômano: Muitos. Muitos.

- Machado: Os cegos naturalmente não podem enxergar, mas há nisso um benefício social avançado; pois há na gordura certa pachorra, certa preguiça que até de pecar afasta a criatura.

- Bibliômano: Você vê uma solução para todas as mazelas?

- Machado: Este tempo ainda está muito atrasado. Chegará o dia em que, por falta de doenças, acabarão os remédios e o homem com a saúde moral, terá alcançado a saúde física, então, por causa da monotonia, o homem receitará tonturas ao homem. Haverá fábricas de resfriado; vender-se-á calos artificiais tão dolorosos como os verdadeiros, alguns dirão até que mais dolorosos.

- Bibliômano: Seria outra tragédia?

(depois, limpando o pince-nez)

- Machado: A tragédia me causa menos enfado porque há nela aquela substância moral que corrige o organismo doente. Como andam os governos? Suprimiram a corrupção da ordem do dia?

- Bibliômano: Você deve estar brincando; a corrupção, por mais que tentem escondê-la, nunca foi tão pública como tem sido atualmente.

- Machado: Corrupção escondida vale tanto como pública, a diferença é que não fede. Mas não é surpresa. O brasileiro já nasce com a bossa da ilegalidade. A República ainda resiste?

- Bibliômano: Apesar dos solavancos.

- Machado: O estado das coisas não pode ser menos cruel quando existe um consórcio entre um povo dorminhoco e um governo de ladrões; há um antigo adágio árabe que diz que no casamento entre cebola e alho, o filho não pode cheirar bem…

- Bibliômano: O fedor está pior que carniça.

- Machado: Muitos larápios no poder?

- Bibliômano: Muitos e vários; é a regra. Agora, mudando de pato pra ganso; alguns dos seus livros viraram filme.

- Machado: Filme?

- Bibliômano: Sim, filme, cinema.

- Machado: Repita esta última palavra.

- Bibliômano: Ci-ne-ma.

- Machado: Me lembra kí-ne-ma. Grego.

- Bibliômano: E o que quer dizer isso?

- Machado: Figuras em movimento, alguma cousa assim.

- Bibliômano: Mas é isso mesmo!

(Bibliômano mostra a TV para Machado)

- Machado: Que objeto extraordinário!

- Bibliômano: É aqui que as histórias são contadas hoje em dia.

- Machado: É uma caixa mágica!?

- Bibliômano: Não; é uma caixa que ajuda a emburrecer.

- Machado: Não creio! Um instrumento tão magnífico, tão imaginoso, tão cheio de virtudes, não pode fazer emburrecer…!

- Bibliômano: Você diz isso porque não sabe o que passa nela nas tardes de domingo.

- Machado: Cousas muito ruins?

- Bibliômano: Não iria gostar de saber…

(ambos dão às costas para a televisão)

- Machado: Ainda se fabricam livros?

- Bibliômano: Sim, mas o que vende de verdade é telefone celular.

- Machado: Telefone celular?

- Bibliômano: Sim, é este aparelhinho aqui.

(pega o aparelho e o dá a Machado)

- Machado: Pelos braços perdidos de Afrodite! A que finalidade serve este besouro metálico?

- Bibliômano: Várias coisas. Ver notícias, jogar, tirar fotografias, ouvir músicas e até telefonar.

- Machado: Pela coxa de Diana! Fazem-se ligações telefônicas a partir deste besourinho?

- Bibliômano: Sim, ouça. (Bibliômano faz uma ligação para um 0800 e dá a Machado)

(Machado, resmungando, cita Hamlet)

- Machado: “A que usos ínfimos temos de nos prestar, Horácio!”.

(Áudio da ligação)

- “Não desligue sua ligação é muito importante para nós, se você já é cliente, disque 3, se é aposentado e precisa de um empréstimo, já iremos à sua casa, se precisa reclamar dos juros, envie uma correspondência com protocolo carimbado, firma reconhecida e autenticada, com nome e endereço para…”

- Machado: Já basta! Desapareça com esse papagaio portátil da minha frente.

- Bibliômano: Não gostou dessa novidade?

- Machado: O que mais se vende neste mundo?

- Bibliômano: Como disse, livro vende pouco, mas moda, roupas, isso vende muito.

- Machado: Não admira; poucos lêem, mas todos se vestem. Mas afinal, ninguém compra livros?

- Bibliômano: Os de “baixo-ajuda” vendem como água no deserto.

- Machado: Baixo ajuda?

- Bibliômano: Desculpe. É auto-ajuda.

- Machado: Como o livro pode se auto-ajudar?

- Bibliômano: Não. Ele ajuda os outros que os lêem. Não; na verdade ele ajuda quem os escreve, ou quem escreve é que ajuda os que lêem? Não sei ao certo, acho que ele só ajuda quem não precisa de ajuda, mas todos acreditam que existe ajuda nesses livros e não sabem que só ajudam quem não precisa de ajuda. Entendeu?

- Machado: Melhor não entrar no mérito. Aprendi a não entrar em polêmicas literárias desde cedo, pois de outro modo, passamos de modestos a pretensiosos. O pugilato de idéias, ainda que de idéias ocas, é muito pior que o das ruas.

- Bibliômano: Sábio conselho.

- Machado: Por sorte do acaso, teria você uma biblioteca?

- Bibliômano: Infame, mas tenho. A maioria dos livros está emprestada. Não aconselho emprestar livros porque ninguém nunca os devolve. A minha biblioteca, por exemplo, é formada com livros que eu peguei emprestados.

(após revirar um baú cheio de quinquilharias)

- Machado: Chama a isto de biblioteca?

- Bibliômano: Esperava uma como a de Alexandria?

- Machado: Nenhum meu?

- Bibliômano: Emprestar livros é uma praga…

(Machado aponta para o pulso do bibliômano)

- Machado: Este bracelete no teu pulso tem alguma função útil?

- Bibliômano: Muito útil, é um relógio.

(Machado tira do colete seu relógio de bolso e comenta)

- Machado: Deveras é uma solução simples e eficiente! Amo as soluções simples.

- Bibliômano: Eficiente e popular; todos usam.

- Machado: Invenções há que se transformam ou acabam, mas o relógio é definitivo e perpétuo; o último homem ao se despedir do sol frio e gasto há de ter um relógio na algibeira para saber a exata hora em que morre.

- Bibliômano: O sol tem andado nervoso e quente por esses dias. Talvez demore um pouco se gastar.

- Machado: Tudo cessa nesse mundo.

- Bibliômano: Não duvido, minha sanidade, por exemplo.

(Machado o olha de viés e se aborrece)

- Machado: Apetece-me sair, quero ver o Rio de Janeiro, o Morro do Livramento, a Gamboa…

- Bibliômano: Pode esquecer, não podemos sair por aí como se fosse um contemporâneo nosso, esses trajes!

- Machado: Pois então! Dê-me vestimenta do seu tempo, sairei incógnito à moderna.

- Bibliômano: Isso não vai dar certo…

Segundo Ato

(Saem do apartamento e chegam ao elevador)

- Machado: Mas este aparelho é uma outra espécie de caixa mágica?

- Bibliômano: Não, é o primeiro meio de transporte mais seguro do mundo…

- Machado: Qual o segundo?

- Bibliômano: Nem queira saber! Como raios eu vou lhe explicar que se fazem viagens intercontinentais e até espaciais com um pássaro de aço com centenas de toneladas que não bate asas?

- Machado: Pássaro de aço?

- Bibliômano: É uma longa história.

(Chegam na garagem, olham o carro, ele não quer entrar)

- Bibliômano: São carros, movem-se com motor a explosão.

- Machado: E os tílburis as seges?

- Bibliômano: Tudo substituído.

- Machado: E os cavalos? Nem que forem invisíveis, mas há de ter cavalos para fazer esta sege rodar!

- Bibliômano: Bom, este aqui deve ter uns noventa cavalos, mas não se espante, existem outros que tem mais de trezentos!

(Ele desiste de andar de carro. Segue o passeio a pé, olha para o céu e vê a lua)

- Machado: Esta lua é minha contemporânea. Deves ser a única maravilha positiva deste século! Boa lua! Continuas a mesma, não envelheces jamais? Esconde bem as rugas, matrona! Velha amiga! Quantas noites em claro lá em Petrópolis a acompanhar os dias menos doces da minha vida? Ah, velha amiga…

- Bibliômano: Ela deve ter se vestido de gala nessa noite, olhe esse brilho!

- Machado: Veja esses milhões de estrelas que cintilam no céu; parecem rir dos milhões de angústias aqui da terra…

- Bibliômano: O senhor tem razão; eu, por exemplo, estou angustiado para comer, pois desde a manhã nada me entrou no estômago senão espanto.

- Machado: Podemos jantar; espero que ao menos a culinária desse tempo tenha evoluído para melhor.

- Bibliômano: Sendo assim melhor nem pensar em ir ao Mc Donald´s.

- Machado: Quantas palavras inglesas! Mas não admira; as placas das ruas são todas escritas em inglês! Deve ser culpa de Joaquim Nabuco. Diga-me: desembarquei mesmo naquele país chamado Brasil? E o que vem a ser esse Mac Donald?

- Bibliômano: O equivalente gastronômico do que passa nas televisões nas tardes de domingo.

- Machado: Uma mistura de besouro falante com televisão aos domingos; definitivamente, os deuses abandonaram os homens às traças…

(Ouvem um barulho e ele olha para o céu)

- Machado: Vocês também fabricam trovões?

- Bibliômano: É o tal do segundo meio de transporte mais seguro do mundo…

- Machado: Valha-me Deus! Quer dizer que as peripécias de Santos Dumont em Paris no ano de 1906…? Não, não pode ser!

- Bibliômano: Pode sim, tanto pode que está aí voando.

- Machado: Logo, se se chegou a esse ponto, o neto de Thomas Edison já deve ter construído um parafuso elétrico e lá está o homem, esse cupim de diamante, a devassar e destruir os oito planetas do sistema solar.

- Bibliômano: Falando assim, você ratifica sua eterna fama de pessimista.

- Machado: Qual pessimista! Diante de tantas tragédias devo dizer que o otimista é apenas um sujeito mal informado.

- Bibliômano: Mas espera aí. Quantos planetas você disse?

- Machado: Oito.

- Bibliômano: São nove.

- Machado: Nasceu mais um?

(De volta ao apartamento, ele lhe mostra o computador)

- Machado: Mas esta televisão é diferente daquela outra! Passa cousas boas nela aos domingos?

- Bibliômano: Essa outra “televisão” passa coisas mais perigosas e proibidas e o pior, a qualquer dia da semana.

- Machado: Cousas proibidas?!

- Bibliômano: Sim, “cousas” proibidas.

- Machado: Ah brejeiro!

- Bibliômano: É um território livre e sem lei; fácil acesso a sexo, promiscuidade de toda feita.

- Machado: Mas sexo ainda é proibido nos dias de hoje?

- Bibliômano: Não é bem isso, mas o que quero lhe mostrar é outra coisa: veja aqui, Plutão foi descoberto em 1930, portanto, 22 anos após sua primeira morte, já que o senhor vai ter de morrer novamente…

- Machado: A morte é um fenômeno igual à vida; talvez os mortos vivam… Mas, não hei de morrer novamente, o sepulcro é um lugar indiferente, frio como um diagnóstico e, além disso, monótono e de monótona já basta a vida!

(Bibliômano diz em tom de súplica)

- Bibliômano: Então que volte para seja lá de onde o senhor veio! Entenda, a questão não é apenas de acomodação, não me importo em tê-lo como inquilino, mas é moral, é jurídica, é religiosa, é temporal, é matemática! É tudo! Porque como estou já por reconhecer que isto não é um sonho e, se estou entrando nas veredas da loucura, presumo que teremos de morrer os dois e, no seu caso, remorrer!

- Machado: Mais tragédia? (Machado fala refletindo) Qualquer um de nós teria organizado esse mundo melhor do que saiu; a morte poderia ser apenas uma aposentadoria da vida, com prazo certo para reabilitação. Diga-me uma cousa; no meio de tanta balbúrdia, tantas proibições, guerras, misérias múltiplas, temos algum grande poeta vivo, algum caniço pensante? Sim, um Castro Alves, um Pascal?

(Bibliômano se recuperando da súplica)

- Bibliômano: Pascal? Por acaso foi aquele que escreveu um tratado sobre as nações aos dezesseis anos de idade?

- Machado: Blaise Pascal.

- Bibliômano: Bem, hoje temos terroristas que explodem prédios e eleições, presidentes de superpotências obtusos que abusam do poder.

- Machado: Como Alexandre, para quem o mundo era estreito?

- Bibliômano: Pior, talvez. Sei pouco sobre Alexandre, é o Grande ou o Magno?

- Machado: Pateta! Magno e Grande são sinônimos, trata-se da mesma pessoa. E teatro? Ainda temos uma Candiani?

- Bibliômano: O senhor disse que queria ver coisas novas, teatro é velharia, existe desde a Antiguidade! (fala irritado)

- Machado: Não te irrites meu caro cicerone ainda temos muito a descortinar… E música? Algum ritmo novo? Tudo cessa diante da música; a tua ira, a política, os Estados, finanças, desmoronamentos, crises; tudo cessa diante da bela ópera, do belo soprano e do belo tenor… O que temos de novo?

- Bibliômano: Esse campo é rico, temos flagelos e delícias, o que prefere ouvir primeiro?

- Machado: Sou pelo pior, como sabes.

- Bibliômano: Há quem ouça isto:

(Toca no rádio um trecho de funk)

- Machado: É um gênero realmente marcante, mas prefiro a polca e o minuete; ambos podem entediar, não o nego, mas ao menos não irritam as partes internas dos ouvidos. O que há mais?

- Bibliômano: Agora vamos às delícias:

(toca “Carolina” de Chico Buarque, Machado e se emociona)

- Machado: Carolina!? Esta cantata me faz lembrar a minha doce e meiga Carolina… Ah Carolina, espírito e coração como os teus são prendas raras. Como te não amaria eu? Mas me diga, quem é o autor?

- Bibliômano: Um certo Francisco de Holanda.

- Machado: Holandeses fazem música em português?

- Bibliômano: Holanda é sobrenome. Ele é seu equivalente na música.

- Machado: Esplêndido! A melodia é sedutora, o timbre da voz casa com a palavra; a música vai com o texto como se houvessem nascidos juntos, à maneira de uma ópera de Wagner…

- Bibliômano: Esse Wagner era um anti-semita miserável. Era o compositor preferido de Hitler.

- Machado: Hitler?

- Bibliômano: Pense numa receita com todos os demônios de Shakespeare, acrescente duas pitadas de Lúcifer, uma colher de espírito de porco, uma xícara bem cheia de estupidez, três partes de Górgonas gregas, e dá um Hitler.

- Machado: Um único homem não pode concentrar em si tantas e tão variadas virtudes. Seria um privilégio raro e raríssimo.

- Bibliômano: Você não conheceu o “Escovinha” era gente finíssima, boa bisca, um sujeito cheio de nobres sentimentos de humanidade…

- Machado: Mas não devemos maldizê-lo tanto assim; está morto, podemos elogiá-lo à vontade!…

(Black out, fecham-se as cortinas)

Terceiro Ato

(O Bibliômano reaparece impaciente)

- Bibliômano: Cumpri a minha parte no nosso trato, agora, Capitu.

- Machado: Letras vencidas urge pagá-las!

- Bibliômano: Então pague-as porque estou ansioso por ouvir e acabar de uma vez por todas com esta especulação!

- Machado: As pessoas sempre serão seres órfãos de respostas em qualquer tempo.

- Bibliômano: Quero saber de Capitu…

- Machado: Acha você que o Bentinho era um homem mau ou bom?

- Bibliômano: Nenhuma coisa nem outra; era homem.

- Machado: Deveras, és um homem surpreendente! Lembras-te do nome dele lembras-te?

- Bibliômano: “Lembros-me”

- Machado: Ah brejeiro! Ah brejeiro!

- Bibliômano: Era Bento.

- Machado: Bento de quê?

- Bibliômano: Bento de… Assis?

- Machado: Bento Santiago, e sabes por quê?

- Bibliômano: Porque era santo, como a esposa.

- Machado: Santiago porque há nele uma porção de Santo e outra de Iago, o Mal em Shakespeare.

- Bibliômano: E daí?

- Machado: Há um abismo que me separa de ti, pois não és capaz de enxergar além do óbvio! És um verdadeiro saco de espantos, meu caro cicerone!

- Bibliômano: Posso ser um saco de espantos, mas…

(Machado o interrompe e fala meio de lado)

- Machado: Cala-te! Felizes os cães que pelo faro dão com os amigos!

- Bibliômano: Está me julgando pior que um cachorro?

- Machado: Qual infeliz! Eu adoro os cães, sobretudo se me conhece, se não guarda a chácara de um amigo aonde vou, se está dormindo, se é leproso, se não tem dentes, oh como são adoráveis os cães que obedecem todos esses requisitos!

- Bibliômano: Vamos ao segredo! Não tolero mais tanta empulhação!

(Machado surpreende o Bibliômano com um frasco de remédio)

- Machado: Eis aqui contido neste frasco o fim de todos os males do Homem; este Emplasto é um medicamento sublime, uma receita anti-hipocondríaca, criada para aliviar toda a nossa melancólica humanidade. Vá, beba-o com ternura, como a um néctar divino.

- Bibliômano: Posso mesmo confiar?

- Machado: Vá beba-o, beba-o…

- Bibliômano: Tem um gosto amargo como o diabo! Isto é uma tentativa de homicídio!

- Machado: Néscio! Não vês que não se alcança o paraíso sem um padecimento anterior? Não te lembras dos hebreus que perambularam quarenta anos no deserto até conquistarem a Terra Prometida?

- Bibliômano: Não quero terra! Não sou hebreu! Quero me livrar deste gosto horroroso!

- Machado: Provastes enfim o sabor único e eterno da vida plena, sem os espinhos que tornam uma reles dor de dente um tormento e tanto, agora levanta-te, olha ao redor e compreendes a verdade sublime do mundo e da vida!

- Bibliômano: Preciso de um tesoura urgentemente!

- Machado: Para quê, neste estado, necessitas tu duma tesoura?

- Bibliômano: Para arrancar a minha língua fora! Só não farei isso porque precisarei dela para xingá-lo depois!

- Machado: Como pagas mal a um benefício! Não percebes que esta ação faz cessar em ti uma certa privação misteriosa?

- Bibliômano: É o benefício da morte!

- Machado: Eras então curioso dos mistérios do mundo e agora que os têm dentro de ti, te amedas deles, que perfeito e acabado palerma que és tu! Grande saco de espantos!

- Bibliômano: A verdade do mundo é como trinta doses de vodka…

- Machado: A verdade é imortal; o homem é um breve momento.

(Bibliômano está em completo estado de alucinação)

- Bibliômano: Acho que não estou me sentindo bem devo estar em perigo de morte; sinto vontade de respirar, sinto náuseas o chão parece ser o vácuo, parece que estou a levitar, consigo enxergar a cor, é uma espécie de cor inédita… Os tons das cores, sim eles estão mais fortes…Tudo está leve, já não percebo a gravidade… Há vários eus dentro de mim… Estou por pouco, um antídoto, uma nuvem domesticada, um percevejo de botas, uma abelha nascida em novembro, poeira em forma de vigas, um arco-íris na minha língua, essa droga cheirosa, há alguma solução para ela…

- Machado: Compreenda amigo meu, não há problemas insolúveis; tudo neste mundo tem uma explicação em sim mesmo; a questão é catá-las…

- Bibliômano: Quero catar um modo de sair dessa alucinação…

- Machado: Meu caro: a realidade é o luto do mundo, o sonho e o delírio são a gala, vamos, coragem!

- Bibliômano: Quero saber de Capitu! Capitu! Capitu!

- Machado: Deixe de pantomimas! Esqueça Capitu, melhor trocá-la por um bom placebo. Ouça este conselho que me deu o lápis; ninguém se meta a querer aquilo que não conhece…

- Bibliômano: Capitu…

- Machado: Capitu não vale a pena nem a misericórdia; desespere dela, absorva o que essa nova visão da vida tem a lhe oferecer, vamos desfrute, sinta o clímax do prazer eterno.

- Bibliômano: O nosso acordo, era um contrato…

- Machado: Capitu é terceira no contrato, mas é certo que ato de terceiro não desobriga o contratante de cumprir a obrigação então eu lhe digo que Capitolina era…

(Machado sai, o Bibliômano acorda)

- Bibliômano: Por todos os deuses! Era apenas um sonho! Que maravilha! Que liberdade! Que desabafo! Que alívio! Ainda é 16 de agosto! Eu não estou doido! Mas e esse gosto? Minha língua está preta! É aquele gosto amargo como o diabo!

O Fim.

Alex Bezerra de Menezes, exatamente às 19h14 de 16 de abril de 2006, faltando exatos cinco dias para contar 34 anos de existência e que, há 36 horas ininterruptas, consumiu uma garrafa inteira de vinho do Porto de má qualidade, Mozart, Chico Buarque e chocolates e de quebra, por falta de algo melhor a fazer, compôs este pequeno opúsculo o qual sinceramente espera, (mandando às favas a modéstia, virtude incomum a quem escreve) que outros possam consumir.

E


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