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Língua Sem Norma






Fiodor Dostoievski sonhava com leitores delicados e cuidadosos. Eu que não sou russo e menos ainda Dostoievski tenho leitores delicados e cuidadosos.



A semana acaba meio assim-assim sem muita graça e emoção; apenas as tragédias do costume: os tradicionais assaltos que alimentam a crucial ciência da criminologia, uma ou outra cabeça rachada, algum deputado solto; e o mais. Diante de um quadro monótono como este, o melhor que pude filtrar foi a arenga de botequim entre o atual e o ex-presidente da república. FHC andou fustigando seu colega dizendo: "Faremos o possível e o impossível para que saibam falar bem a nossa língua. É por isso que em Minas Gerais o ensino passou para nove anos, e não quatro. Queremos brasileiros melhor educados, e não liderados por gente que despreza a educação, a começar pela própria", disse FHC no encerramento do 3º congresso do PSDB, em Brasília.


Por ironia do vernáculo ele escorregou na sintaxe.



Eu mesmo cometi um atentado contra a norma culta da língua, ao escrever no texto “Mulheres de Angola” que a palavra “estava” é verbo transitivo direto. Não é. É apenas um verbo de ligação, como me ensinou o delicado e cuidadoso leitor Paulo Santos. Obrigado.



FHC, segundo pede a norma culta, deveria ter dito “bem educado”.



- Ó Norma Culta, velha coroca que vive para dar rigidez ao que é dissolvível!



Eu, que não gosto de defender políticos nem quando eles morrem impunemente, me vejo obrigado a defender FHC e com esse ato vil confecciono também meu salvo-conduto; ninguém faz nada sem visar seu próprio benefício.



As regras que estruturam o nosso idioma são de uma complexidade quântica. Talvez seja mais fácil encontrar a finitude dos números binários do que falar e escrever com a perfeição dos santos essa língua tão bela e tão inculta, como cantava Olavo Bilac, tão tortuosa e traiçoeira como dizia eu mesmo que, me citando, me celebrizo a mim mesmo, sem esperar a boa ou má vontade dos demais homens, e aí já devo ter cometido dois crimes; um gramatical e outro de imodéstia, esse sem solução e sem gravidade.



Pensar o quê duma língua em que se diz “pois sim” para falar “não” e “pois não” para se dizer “sim”?; “dia-a-dia” assim escrito, é substantivo; já a forma sem hífen “dia a dia” é locução adverbial; à-toa com hífen é adjetivo; “a toa” é advérbio; como explicar para um húngaro que “entrar bem” é na verdade “sair-se mal”?; não dá, é muito detalhe minucioso, epa!, se é “detalhe,” tem DE ser minucioso (é recomendável que se use “de” em vez de “que” após o verbo “ter” que nem me atrevo a dizer se é transitivo direto, sinuoso oblíquo ou esburacado composto). Vá de retro, verbo meu.




Escrito por Alex Menezes às 00h03


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