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Kafka e Nós

“Existe apenas o mundo espiritual; o que chamamos de mundo físico é o mal do mundo espiritual”.


O escritor tcheco-judaico Franz Kafka não intenta com este pensamento negar a existência, mas sim dilacerá-la, oprimi-la, tal qual ela faz conosco, mesmo enquanto mortos. Não obstante, procurar compreender a gênese deste gigante da civilização por meio de explicações fáceis nos encerra na armadilha mortal da bruta flor do querer.


A despeito de sua identidade judaica, apenas visível na sua solidão, Kafka redime o humano, não procura inventá-lo à maneira de Shakespeare; não: ele busca aproximar o homem do palpável, e o faz de modo sublime por meio do absurdo que, parecendo contrair, expande a consciência. Seguindo este rastro sulcado na água, a energia dinâmica que o escritor transborda em cada texto é retirada do fato de ele ignorar seu próprio gênio; sem saber, ele profetizava e, mais extraordinário, não submeteu sua obra à própria biografia, algo raro entre artistas deste quilate. Não se pode imaginar a ira obscena das telas de Caravaggio sem associá-la à sua personalidade violenta e criminosa.


Quando Kafka amarga-nos deliciosamente com sua ironia disforme ele não quer um estilo, uma expressão, parece que ele tenta regurgitar no espaço físico todo o veneno e toda a agonia que opera no dueto que entrelaça tragicamente o homem e o mundo, luta constante em que o homem sempre é vencido. Nesta plataforma instável (quase gelatinosa) é que vem o anseio pelo consolo; a sereia de Kafka usa o silêncio para fisgar sua presa, o equilibrista não quer sair do trapézio. É tão aguda e pungente sua performance em retratar o sistema do mundo que nos dá a falsa idéia de que flerta com o sinistro.


Contudo, apesar do “peso” e densidade psicológica de seu instinto, causa espanto notar que sua autoridade espiritual é ainda novata e, todavia, canônica, um feito e tanto para um escritor que negava sua própria arte, talvez por exceder na vaidade: o certo é que esta autoridade corroerá todos os séculos que esperam ansiosos por uma humanidade ainda mais displicente do que esta em que fazemos parte e de todas as passadas, cujo único crime foi o de ter deixado como herança o ensaio do colapso moral que agora começa a se erguer e que vai perfurar a inocência das futuras gerações, que já nascerão culpadas, sem possibilidade ou meio de redenção.


Lendo-o, a tecnologia se torna obsoleta, o credo infantil. A noção de que há um lugar no mundo para nós também se dissipa porque tudo vagueia inexoravelmente para o estúpido para o impalpável e o incompreensível, dando-nos enfim a consistência frágil da poeira. É possível que ele não importe tanto ao mundo por esses atributos difusos e não tenha um alcance universal, dada a natureza dos livros ser assim mesmo elitista e seletiva. Neste sentido, quem seria Kafka? Um pequeno-burguês mimado que não encontrou um amor, um filho ressentido pelo desprezo do pai (Freud não importa a ele); um homem branco europeu, educado na tradição judaico-cristã? Não e tudo isso. Kafka surpreende por não caber num rapto intelectual; ele é tudo o que se pode dele depreender, ele mira no escuro e ainda assim nos acerta o coração e a alma, ressentida, vai a busca do fragmento da bala: também ela quer ser alvejada por este colosso ímpar, uma mente que consome centenas (milhares?) de anos para ser fabricada.





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