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Falsificando a Inovação

A inovação é um dos motores da humanidade. Claro que às vezes tem gente que exagera, como aquele sujeito que pediu ao terapeuta (ou ao diabo) para transfundir na esposa as virtudes da amante. Seria uma revolução e tanto.


Os notáveis falsificadores do Distrito Federal inovaram. Falsificam espumante, uísque, vodka, essas águas que a natureza sabiamente impede de nascer em fontes. A novidade, a sensação o toque de Midas da quadrilha não foi os produtos que falsificavam, mas o aditivo especial que eles injetaram nos líquidos etílicos. Analgésicos. Não é original?


A atitude dos bandidos mexe com meu senso de equidade. Oscilo entre pensar que eles adicionavam o medicamento por misericórdia cristã ou por eficiência protestante já que o pensamento no lucro pede a sobrevida dos consumidores, ainda que precária é verdade, de onde nasceu a fagulha do aditivo anti-cefaléia; biólogos chamariam isto de preservação da espécie, só não identificariam de qual, se dos bebedores ou dos produtores. Questão de semântica multicelular.


Esse tipo de engenho serve muito mais à filosofia do que a fóruns criminais. Juizes, promotores, na agudeza árida de seus ofícios, não vão atinar para a sutileza deste episódio; vão processar o caso com a melancolia burocrática do costume, desvendo que diante deles está um dos capítulos mais importantes da evolução do homem; Charles Darwin abandonaria os mexilhões das ilhas Galápagos para estudar o caso, tentar sacar dele a faísca que acendeu a fogueira da evolução das espécies.


Platão, de espírito muito mais contemplativo, entenderia que estava aí a explicação para seu mundo etéreo, porque a simples atitude de curar enquanto envenena faz do homem esse ser não só complexo, mas engraçadíssimo, e a comedia é um ramo da filosofia, porque a única coisa que ela trata com seriedade é a morte, mesmo quando brinca com ela.


Então fica assim, toda vez que precisar bebericar alguma coisa num bar, calcule a possibilidade de a fraude vir junto com a ressaca; por amizade, não pedirei para que leia Platão ou Darwin, pois isso equivale a falsificar nossa comunhão, que é sadia. Tin tin.





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