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Ei Você Aí! Me dá um Cigarro Aí!


Uma brasileira acaba de ganhar uma ação na Justiça contra a companhia inglesa de tabacos Souza Cruz. Mordeu 200 e tantos mil reais da empresa. A brasileira teve a perna amputada por causa do fumo, cânceres para todos os gostos, enfisemas, bronquites; o cigarro transformou-a num hospital ambulante. Não consigo conceber nada mais injusto contra a produtora desses produtos à combustão. O juiz que julgou o caso deve ser dos exemplares de homens que fazem do puritanismo jacente um modo de vida, o que resultou na condenação da firma que eu, por óbvio, considero injusta. Numa guerra entre a água e o fogo quem vence é o vapor. Numa contenda entre o justo e o injusto quem vence é aposentadoria ou a Economia, essa ciência inescrutável e infantil. É inconcebível que numa sociedade “livre” uma empresa sofra sanções da Justiça por vender um produto dito “legal” e que todos sabem nocivos, mas que não obstante é tão popular quanto a mentira, e talvez até menos necessário que esta, já que é sabido que em alguns casos a mentira salva, reabilita e até conforta, virtudes que o cigarro, por mais viciado que você esteja, ainda não tem. A brasileira (insisto na nacionalidade da autora da ação para mostrar que alguns compatriotas têm brios e senso de sobrevivência) a brasileira relatou no processo que fora ludibriada pelas propagandas da TV que inspiravam um modo de vida viril e glamoroso e só por este singelo capítulo de defesa eu, se fosse juiz, a puniria pelo crime de leviandade, cominado com o de ingenuidade, o que lhe aumentaria a pena em dezenas de décadas e ainda a obrigaria a pagar um dízimo à Souza Cruz, até enquanto morta. Ora, ela queria a ruína das empresas e das modelos que emprestam suas imagens belas para vender cilindros de fumaça. Ela não entende que talvez os sucessos das campanhas fossem outros, caso os anunciantes mostrassem sei lá, uma festa de arromba num necrotério, um baile numa UTI em que fosse servido, em vez de cerveja e peitos, um milk shake à base de bílis. Não há crime de maior potencial ofensivo do que a ingenuidade. Deve ser combatido com veemência e simpatia. Como tenho esperanças de que dessa vez a moda “pegue”, já sonho com um processo contra a Volkswagen, caso seja esmagado por um Gol sem placa, ainda que esteja estacionado. Se eu enfiar os dedos nas hélices (ligadas) do liquidificador Wallita, eis-me às portas da Justiça reclamando um ajuste na conta bancária, dispensando a reconstrução da mão, que pode ser plenamente substituída por uma serviçal, paga de modo vitalício pelo que eu conseguir auferir nos tribunais. Se a televisão, não a caixa, o tubo, o plasma, o LCD, o diabo, mas as empresas que fornecem os substratos que tornam essas telas interessantes, por algum motivo deturpar a minha noção política/educativa ou me viciar em hábitos pouco saudáveis como cultuar pessoas de caráter torpe ou mesmo me deixar obeso pelo excesso de exercício ocular, lá estarei eu, advogado a tiracolo, a pedir a Sra. Justiça para que condene indissoluvelmente as redes de TV, afinal de contas, nenhum cidadão pode ficar exposto à substâncias que machuque sua alma ou seu corpo, este último tão necessitado de dinheiro e oportunismo para se manter de pé. Escrito por Alex Menezes às 22h15

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