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Doando a Amazônia

Toda vez que eu citar uma personagem obscura como Paracelso, Gilliard ou Calístenes de Estagira desconfie que isso é efeito pedestre, marotamente empregado para preencher uma lacuna temática. Enfie fé quando eu citar gente de alto gabarito, como um político honrado ou um artista de ocasião.



O pessoal do estrangeiro quer tomar para si a dona Amazônia; pretextam a posse do matagal para o fim nobre de dele cuidar, preservá-lo e demais engodos. A grita nos editoriais foi eufônica. Estridente. Reclamaram às tantas com a publicação sugestiva do NYT falando que não é dos brasileiros o direito único de cuidar da floresta, uma vez que ela é de todos. Eu concordo.



Tenho horror ao nacionalismo, principalmente o de fachada, mormente criado para defender um interesse espúrio. Entregaria a Amazônia aos gringos em troca dum espelho, duma lamparina: aceitaria até uma cartucheira, um frasco de perfume vazio. Se eu concentrasse em mim a figura do povo, do presidente da República e dos ministros do STF, presenteava a comunidade internacional com aquela mata que nos é onerosa e inútil.



Os leões indômitos (baita clichê!) que salvaguardam nossas riquezas berram com insuficiência respiratória. São asmáticos políticos, pseudos-defensores do Brasil. Eu já digo que não defendo nada; por mim o país dissolve-se em Xuxas e Gugus Liberatos, os verdadeiros heróis nacionais. Pegamos uma menina séria, como essa Marina Silva, e a enxotamos do cargo que não caberia a mais ninguém exceto ela. E há grita? Palanques? Passeata? Cobertura isabeliana da imprensa? Só ouvi uns suspiros. E um suspiro efêmero, porque morreu, seu dono Jefferson Peres.



Entreguemos a Amazônia. Mas sem contrapartida: apenas entreguemos. Somos incapazes de cuidar até dos óculos da estatua do Carlos Drummond no Rio, que já foi roubado por três vezes e cada óculo compreende apenas míseros centímetros! A Amazônia, algo quase maior que um par de óculo, merece outro zelo. Da-la-emos sem barulho. Quando pudermos cuidar duma estátua, cuidaremos duma floresta. Coisa que consumirá milênios. Mas, Après moi, le déluge. Como queria Luis Quinze.



O certo seria os gringos tomarem conta, militarizando a área e comerciando-a (como já ocorre a boa grande), e nós pagaríamos um dízimo por este serviço. O presidente europeu-asiatico-norte-americano acumularia o cargo de comandante-em-chefe da região.



Ex-nossa, a Amazônia conheceria enfim a prosperidade; seus 20 milhões de habitantes (não computados os insetos, mamíferos, arrozeiros, grileiros e pistoleiros) poderão desfrutar das benesses de viver num lugar onde há governo; mas os defensores não hão de deixar; farão piquetes, estudantes pintarão a cara em protesto, transluzirá a bandeira do Brasil defendido por brasileiros ferrenhos, cheio de amor para dar, desde que não precisem enfiar o pé na lama.


Après moi, le florestá.





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