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Do Xixi ao Pipi – Vocábulos Passivos

Tem gente que só fala usando o vocabulário passivo. É chique. O vocabulário passivo transforma aquele que o entoa numa espécie de dândi da palavra, um cavalheiro medieval, um trovador, um seresteiro, um Lord Byron da era digital, algo desconectado do avanço do tempo e das necessidades verbais. Faço até um esforcinho, mas não consigo falar dessa forma. - Por favor, poderia trazer meu veículo? - Senhor, poderia tocar aquela canção do Noel Rosa? - Rapaz, mexe com o chefe não, ele está sisudo demais hoje... Não, ninguém fala assim. Todavia, (todavia só é cabível num texto escrito, imagine isso num estádio de futebol:) - Tinhorão, eu creio que o árbitro engodou meu time, aquilo foi penalidade máxima...todavia, se a mãe dele não o tivesse concebido... Não, não dá para aceitar, é uma conversa surreal. Entrementes, há vocábulos passivos que são extremamente bem-vindos ao uso e ao dia-a-dia: não se pode imaginar isto de uma lady, que nem precisa ser a linda Godiva, dentro de um restaurante finíssimo, onde a comida é servida com arrogância e escassez: - Um minutinho, meu amor, preciso ir mijar. Acho que o termo “xixi” cuja origem ignoro, exceto quando bebo cerveja, é uma das invenções mais célebres do mundo; boto-a no mesmo patamar de importância da penicilina, que foi descoberta por acaso, mais o “xixi” não, tenho certeza que foi descoberto por necessidade, por instinto de elegância e sofisticação, armas sem as quais sociedade alguma evolui ou evoluirá. Ia enfiar outro “exceto” no texto, mas penso melhor e acho que é melhor não meter exceções quando o que existe é mera lacuna de idéias para completar o artigo. O próprio “xixi”, quem diria, já soa quase como um vocabulário ativo, há uma corrente que prefere o inocente “pipi” que evoca um certo ar infantil à ação da bexiga, um modo eterno e terno de continuar a urinar no jardim de infância. Mormente, o sujeito (não verbal, mas individual) que se mete a querer falar assim ou será confundido com um gay ou com um “filhinho da mamãe”, o que para alguns machistas de plantão (eu incluso?) dá no mesmo, pois é o estágio que oficializa e habilita o desmunhecar dos meninos em tenra ou vetusta idade. Eu mesmo acho que é uma lenda. Anedotas (des*) graçadas como essas à parte, esforce-se a polir seu vocabulário; uma leitora estranha ao meu convívio escreveu que melhorou seu vocabulário depois que passou a ler esta coluna (com a qual pretendo alcançar minha independência financeira, e se não der, ao menos a independência moral que já me satisfaz), e sinceramente não sei se ela fez piada ou se falou de verdade, se é vero, aconselho-a a cuidar melhor de mim; pode começar a me enviar mimos periódicos, como Oscar Wilde, meu gosto é simples, só gosto do melhor, então providencie aí umas caixas de trufas brancas italianas, uma gema de diamante rosa para eu colocar na maçaneta do quarto, que mais? Vinhos da Casa Romanée-Conti safra 1982, aquelas roupas que o diabo veste, mas se tudo isso for por demais extravagante, contento-me com uma assinatura anual de Caras, que custa um pouquinho menos e me trará muito mais felicidade; se tiver felicidade em excesso, mande-a desembarcar aqui. PS: é feriado prolongado; nada de bebida e volante, quero-os vivos para ver até onde vai dar isto aqui. PPS: “des” é prefixo de composição latino, com o sentido de “tirar”, des-natar, des-miolar, des-trambelhar, des-munhecar; alto lá: como é que se tira a munheca?! Escrito por Alex Menezes às 22h28

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