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Desejo e Reparação

O filme “Desejo e Reparação” é "Atonement" no título original, que, segundo a intelectual suíço-brasileira Nathalie Stahelin, "é uma palavra inglesa rebuscada, sofisticada”; adjetivos que quadram bem ao longa-metragem delicadamente dirigido pelo inglês Joe Wright. A sofisticação vem da narrativa brilhantemente adaptada do já célebre romance do escritor Ian Mc Ewan, e o rebuscado da sutileza com que é captado e alinhavado cada feixe dos pequenos acontecimentos que destroem duas vidas. Raramente uma fita transpõe para a tela aquilo que só a linguagem silenciosa dos livros é capaz de mostrar.


O tema principal é a culpa, a expiação por um mal deliberadamente cometido.


O psicanalista Contardo Caligaris escreveu que o filme revela essa nossa incapacidade de lidar com a culpa, que ele demonstra vir desde o berço, do leite materno que sorvemos impunemente até nos darmos conta de que o leite é de um seio, o seio de um dono, o dono é alguém com quem automaticamente contraímos uma dívida.


No filme, atormentada pela culpa como um Raskolnikov moderno, a pequena Briony (Saoirse Ronan) não vive mais a sua vida após cometer um crime: o de acusar injustamente seu pseudo-cunhado, por quem nutre uma paixão infantil, de um pseudo-estupro, e por tabela destruir a vida de sua irmã. Quem mais sofre no filme é essencialmente aquele que deve sofrer, e não é o sujeito que ficou preso injustamente, mas agudamente a pessoa que o acusou. Como isso se dá? Pela dor mais pungente que nos toca a alma: a da consciência, quando se a tem.


E ela, felizmente, é dotada dessa “consciência punitiva” que a obriga a remoer e jamais desatar os laços do dramático nó que atou em derredor de pessoas de sua estima, o que potencializa o martírio. Quando Raskolnikov mata a velha agiota, está ciente de que matava “um símbolo” do estado decrépito da sociedade moderna, e não uma pessoa, o que em tese solapa seu dissabor pelos efeitos do assassínio.


Todos temos culpa; o simples ato de nascer já configura culpa, talvez por termos usurpado o lugar de outros milhões de candidatos à vida naquele momento crítico que precede a fecundação. E ela talvez se inicie quando, ao nascermos, choramos sofregamente, contrariando o axioma shakespeariano que diz que choramos ao nascer porque iremos entrar nesse vale de demências.

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