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Da Maior Declaração Já Feita, by Keith Richards



Machado de Assis dizia que não havia espetáculo mais melancólico do que ver um ancião comprando um bilhete de loteria. É uma pena que o mago não tenha vivido o suficiente para descobrir do que o homem é capaz, e assim não vir outros espetáculos tão ou mais melancólicos do que este citado. Eu, por meu turno, contrario Machado e absolvo o ancião: ia que ele contasse com a sorte grande para um breve alívio estomacal?


O guitarrista dos Rolling Stones, Keith Richards, fez a mais estupenda e inimaginável declaração desde, sei lá eu, o discurso de Gettysburg proferido por Abraham Lincoln ou, se você preferir, a Declaração Universal dos Direitos Humanos. Sinceramente, não consigo encontrar algo igualmente estupendo. Que tal a declaração da invenção do HIV? Melhor impossível: que tal a declaração da sanidade de Britney Spears? O que Richards declarou foi isto:


"Cheirei as cinzas do meu pai, misturadas com cocaína".


Nada menos. Morto aos 83 anos em 2002, o aspirável pai do guitarrista foi cremado e não sonhava com semelhante fim depois do seu fim, prova irrefutável de que o fim em si pode ser apenas o início de uma tragédia ou de uma anedota, o que dá no mesmo.


Na entrevista, perguntado sobre qual a substância mais estranha que já tinha cheirado, ele não titubeou, respondendo assim:


"Meu pai foi cremado e eu não pude resistir às cinzas dele. Ele não ligaria. Foi ótimo, estou bem e vivo". Sim, ele está vivo e, segundo crê, para regozijo do velho pai. Se isto é uma forma de homenagem, não sei, o que sei é que sentirei falta daquele tempo remoto e até lúdico em que dar um cheiro no papai era apenas uma demonstração de carinho.


Richards sofreu uma cirurgia no cérebro em 2006. “Abriram minha cabeça, meu crânio. Entraram, perceberam a merda que estava lá e colocaram tudo de volta”. Duvido que tenha sido este produto nauseabundo que os médicos encontraram debaixo do crânio dele. Eu, como os pobres (que é o que sou), gosto é de luxo e de riqueza, e por isso creio que o que tinha dentro da cachola dele eram pedras, sim, pedras preciosas, que rolavam, se debatiam, se amalgamavam; pedras rolando na cabeça do moço. Fato este que causa essas confusões mentais, de querer entranhar dentro de si os restos do pai, que pode até ter sido um mau pai, mas nada justifica querer transformá-lo numa droga de pai.


Pensa que acabou? Começo e termino enfatizando, via Machado, o estado de lama deste mundo surreal: “(...) eu, prestes a deixar o mundo, sentia um prazer satânico em mofar dele, em persuadir-me de que não deixava nada”.




Escrito por Alex Menezes, às 23h53.


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