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Cogitações Sobre Adão

Não nos foi esclarecido o que ocorreu com o Paraíso logo após a expulsão adâmica. Se o projeto de povoar a Terra com germens paradisíacos vingasse como estaria o mundo hoje?


É compreensível que o teor de todos os pormenores e por maiores dos eventos que culminaram com o fim do contrato de inquilinato entre Deus e o homem no Éden não se limitaram ao simples desvio gastronômico, mas à violação do acordo feito e tacitamente assinado.


Duas arvores havia; uma do Conhecimento, outra da Vida. Ambas foram violadas. A sobrevivência precária do homem desde então o igualou e simultaneamente condenou os demais viventes; plantas, animais e toda série de matérias animadas. A literatura e a historiografia não esclarecem se os animais morriam para dar mate à fome dos carnívoros ou se o carnívoro é o efeito colateral do pecado.


Outro mistério é o tempo decorrido entre a nascitura do Primeiro Homem e sua Queda; teria vivido 30 mil anos? 5 mil? Tal quantia de tempo – ainda que sozinho – equivale a uma rebarba de eternidade.


Neste tempo, teria ele estado imune à vilania da natureza? É certo que hoje estamos todos sujeitos a ela e ao chicote. Mas e naqueles tempos? Alexandre da Macedônia viveu por 32 anos e 10 meses superando e desafiando impetuosamente a natureza, até que ela se fartou dele e da bulha de seus combates e o esmagou entre seus dedos seculares. Agonizou por oito dias antes de ceder ao apelo da morte.


A necessidade de compreensão de certas atitudes divinas choca-se imediatamente com nosso senso de limitação porque em verdade não há limites para o homem; ele se torna deus, sanguinário, arquiteto, demente, usurário, monodogmático: se há uma culpa entre um erro ancestral (de um pai comum) e o saldo deste preço alto ainda ter de ser pago hoje em dia, em parcelas salgadas, reside aí uma prova de certeza da grandeza Daquele que nos criou.


A conexão entre o Paraíso e o hoje é só um reflexo pálido, o horror da traição já deveria ter sido prescrito, quando menos perdoado, uma vez que os prazos prescricionários da instância celeste devem ser outros, mas vá que o preço pago pela vida seja quitado com alguma dor; muitas já foram saboreadas, e o fim dela – especulo sem o advento místico da Cabala – ainda não parece razoável, nem tangível.


Deus informou a Adão dos infortúnios da desobediência. O primeiro homem apenas não tinha consciência da extensão de seu ato, não lhe fora dado o poder de prever os desdobramentos espetaculares do seu assédio ao proibido. Ignorante da sorte dos seus, Adão poderia facilmente ser identificado como o maior vilão da História e, no entanto, é uma personagem obscura, sem perfil psicológico e por fim é a maior de todas as vítimas, pelo simples fato de não poder expiar sua culpa, exceto com a morte que bem analisada não passa de redenção ou de um benefício quando não se pode mais viver. A herança de Adão é o desespero. A fome e a comida é o tempero dócil da saciedade espiritual. Nada há mais pungente que a sagacidade do homem que reverbera em todos os tons a inquietação de ser vivo e disso ter consciência e disso negar, quando se faz necessário morrer.





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