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Carta Aberta à Morte: Cinco Jovens!

Sei que você ainda não se pronunciou, deixou-se estar aí quieto, porque eu ia começar a conversa de hoje com o “e por falar nisso...”; é recurso de estilo, um modo primitivo de dourar uma malévola pílula embrulhada nas palavras a seguir, palavras, adianto, tristes como os enterros pobres, melancólicas como um prato cheio de poeira.


As cinco amigas mortas num acidente rodoviário após voltar de uma festa na cidade de Mogi das Cruzes é desses capítulos em que até os obituários enlutecessem com um negro mais profundo que o habitual negrume da morte unitária, espécie de morte mais geral e talvez por isso mais tolerável; mas as que vem assim, arregalando seus olhos trevosos para colher a vida de cinco jovens duma vez, causa certo temor; temor de que a misericórdia, esse refúgio que abriga até os ingratos, de quando em vez fecha os olhos e sem sinceridade, faz outros olhos ficarem secos de estupefação. Cinco jovens!


Pessoalmente não tenho nada contra a morte e olhe que não falo isso para elogiá-la e com essa astúcia torcer para que me poupe; ela não poupa nada nem ninguém; a morte é dessas instituições que não absorvem o logro, mas tolera desafios; o fabuloso Wittgeinstein vivia querendo morrer e a morte, sabedora do seu intento público, adiou o quanto pôde levar embora o grande homem, mas como o filósofo era dotado de elevado saber, desconfiou do plano da morte e de moto-próprio deu cabo da vida após esperar 62 anos para que ela mesma executasse seu trabalho hostil, e desconfio que se não fosse esta trágica ação voluntária ele estaria por aí vivo, escrevendo outros Tractatus Logicus corroído por 125 anos de sofrimento.


Já falei num outro texto qualquer que morrer não é o pior; penso em mudar de opinião, mas seria o equivalente a se dobrar duplamente à extinção; à física e à intelectual, e essa ela não irá usurpar de mim; é muito provável que as moças ceifadas também tivessem suas opiniões acerca das fragrâncias; uma devia preferir alfazema, outra o lírio do campo, uma ainda se contentaria em apenas apreciar a beleza botânica da terra, isso certamente a morte não lhes tirou.


Viva Srta. Morte. O melhor modo de você sofrer é ser obrigada a viver por tempo indefinido, coletando de modo também indefinido o protesto dos poetas, dos pintores e até das flores que em silêncio se indignam de sua crueldade lançando ao ar o perfume que deve enchê-la de torpor.





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