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Café Filosófico na Loja da Moda





Dia daqueles, entrei num restaurante ávido por uma picanha e quase saio de lá com um enfisema: havia um bárbaro que em vez de empunhar um tacape, empunhava um cigarro que não lhe saía do bico. Ossos da picanha. Esqueçam: não estou aqui para falar de ladainhas de pulmões perfurados, inundados ou enegrecidos – estou para fazer uma errata, eu sou uma errata humana. Para Pascal todo homem era um “caniço pensante”, eu sou uma errata apenas.


No domingo, saí de casa para dispersar o acúmulo de letras que tumultuavam minha cabeça, almocei e jantei no mesmo ato e prato, desci as escadas rolantes do elegante Shopping Higienópolis e no térreo, não pude me conter ao ver uma formação de fila, sem caos, organizada, fila de elite mesmo, apesar de sinuosa para otimizar espaço, parecia reta como uma régua, ou como a biografia de alguém que nunca nasceu.


“StarBucksCoffe”


Este era o motivo da fila. Namorei-a como se estivesse a contemplar a Vênus de Milo no Louvre, ou uma Vênus do bairro que passasse viva ao meu lado; não tenho atributos nem grana para ser tão exigente assim. Enfrentei a fila com toda a dignidade que me cabia, sem convicção do que pedir, torcendo para não chegar a minha vez, expiando o que as pessoas pediam para eu pedir também e não passar mais vexame; um povo tão chique na minha frente e eu com uma imitação barata de Havaianas nos pés!


Chegada a minha vez, prospectei o cardápio, a pirotecnia de cinema para se fazer café, um artefato que lembrava liquidificadores embutidos no balcão, grãos de toda parte do mundo, máquinas complexissímas de operar, senti angústia até no rapaz que me atendeu, cutuquei seu pensamento e nele vi que ele rezava para eu não pedir algo complicado demais. Olhando tudo aquilo, pela primeira vez na vida não lamentei a morte precoce da minha vovó: ela nunca iria suportar tanta tecnologia. Ela só carecia de um bule e dum coador, agora é preciso uma tendência, uma ciência de ponta.


Pedi um coffe´s cream não sei o quê lá mais, parecia o nome de um fármaco em alemão; vinha com lascas de canela e outros condimentos cujos nomes ignoro; o rapaz, incrivelmente negro naquele ambiente incrivelmente branco de gente e de objetos, me garantiu que era uma boa pedida; R$ 13,80 no tamanho trail. Paguei. Provei ávido. Gosto nulo, sabor de gelo com glicose. Deveria ter ido ao Bob´s, um milkshake de ovomaltine que meu bolso e estômago já conhecem bem.


Fiquei pensando em mim ali, fantasiado de classe-média, freqüentando um lugar “da moda” por força da fila e da novidade, precisando consumir para certificar o que as propagandas garantiam nas páginas de revistas. Sentei no banco e fiquei amuado, bebendo aquilo, sem entender a lógica, a rima, mas bebi, e depois fui andando para casa, sem me importar com aquilo, ninguém pensa em filosofia enquanto come um Big Mac.




Escrito por Alex Menezes às 22h50


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