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Bom Exemplo no Oásis da Frivolidade


“Meu prazer de escrever ainda é maior do que o de ser lido.”


O jornalista cultural Daniel Piza cunhou esta frase que julgo ser de impacto ulterior à simples questão da relação escritor-leitor --- ela diz muito mais; ela transcende e inquieta: é uma opinião reflexiva do nosso moderno e coercitivo modus vivendi.


Rubem Fonseca, talvez o maior escritor brasileiro vivo, certa vez disse que Kafka era bom porque não escrevia para ser lido. Remoí isto no liquidificador instalado acima do meu pescoço, e o que foi coado é que: a vaidade supera a austeridade. Ele queria sim ser lido, ainda que por leitores menos obtusos. Kafka pediu para que seus escritos fossem queimados. Max Brod, seu amigo e herdeiro literário, o desobedeceu, e assim legou a nós aquilo que hoje chamam de “a mitologia do século XX”.


A genuína expressão de Daniel Piza, de que o prazer de “construir” se sobrepõe ao de ser contemplado pelo construído e, consequentemente, adulado e bajulado, nos coloca diante de um colosso de desapego à vaidade intelectual, de rara ocorrência (nem Gaudí!) e que merece todas as loas, haja vista vivermos numa época em que ser “celebrizado”, “reconhecido”, “honrado”, ser o vetor de uma sociedade febril que se compraz com o acúmulo nauseante de exposição, seja-a pérfida ou nobre, “é o que há”. O que vale é ser incensado, não importando se nas páginas policiais ou nas colunas sociais (dá no mesmo?); o que conta é a fama.


O atual fraudador do INSS ficará desolado ao saber que será ultrapassado por outro larápio que se tornará “o maior da história”, e uma tal manchete pode até levá-lo à depressão, tal é a pressão social em ser-se o melhor em tudo que se faz.


Um exemplo como este merece ser aclamado, reter em si o teor misterioso e divino da substância com que são feitos os holofotes, iluminando-o para agora e para a posteridade, que é também uma forma de holofote sem feixe de luz. Conceito moral, inclinação demagógica para o politicamente correto, tudo isso pensará o leitor; e estarei com você neste pensamento. Para mim, aquilo que não for vaidade, é autoengodo.


“Só é vaidade legítima a consciente” - Shakespeare, em Trabalhos de Amor Perdidos, ato II.




Escrito por Alex Menezes, às 22h22.


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