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Aos Críticos com Carinho




Rendeu tanta polêmica o texto do ano novo (116 e-mails, etc) que fiquei com medo de escrever este e também os próximos. Explico. Alguns leitores são tenazes, outros entrubicados, rubentores. Não procure “entrubicados” ou “rubentores” no dicionário porque essas palavras medonhas não existem; acabei de dar-lhes vida agora. Fui acusado das mais feias coisas. Comedor de dicionário foi a que mais me encantou e sensibilizou, tanto que vou considerar seriamente lê-lo antes de dormir, mas como durmo pouco, levarei anos até superar a letra A.



A variedade humana guarda as mais curiosas veleidades: tem gente que gosta de cenouras. Outros de ir à delegacias, uns de dor de dente, outros de queimar gente vivas; alguns têm apreço de gozar do sujeito sem orelha que precisa usar óculos; outros preferem as cores do magnânimo pôr-do-sol; eu gosto de palavras. Consumu-as.



A mãe de um poeta perguntou aos seus 7 filhos o que eles mais gostavam, a resposta do filho poeta foi esta: “Eu gosto de sorrir”. Percebem a ousadia? Ele poderia dizer simplesmente que gostava de traquinar, ser parceiro do diabo, essas coisas que os meninos têm inclinação de gostar. “Eu gosto de sorrir”. Isso me lembrou uma crônica antiga que eu li. Havia um burro quase morto na praça. Dois meninos o cobiçavam, armados com um pedaço de pau cada um. O cronista que presenciou a cena suspeitou que os meninos queriam meter o pau na anca do burro “ou era isso ou eu não conheço meninos”, concluiu o escritor.



Parece que eu não sou mais menino. Em verdade, gostaria de sê-lo; ser criança causa bem menores aborrecimentos e os prazeres fornecidos pela adultência não vale a conta cobrada ao fim de uma noite sem sono. A impressão que dá ao leitor é que eu não tenho o que escrever e fico inventando histórias. Não o culpo por isso; muitas vezes se diz uma coisa com o intento de esperar que o interlocutor entenda outra e essa artimanha secular tem tornado possível a vida em associação.





Lá na Ásia, ainda hoje os pais falam para as crianças que, se elas não se comportarem, Alexandre as vem comer. Alexandre é o equivalente asiático ao nosso bom Bicho Papão. Pudera. Dizia-se que Alexandre tinha chifres (daí seu nome indiano, Dur-Carnaim, “dois cornos”) e que todos os barbeiros que lhe descobria o segredo era morto até que um dia um conseguiu fugir e antes de ser capturado gritou dentro de um poço “Alexandre tem chifres!”, só que o poço tinha madeiras que eram usadas na confecção de flautas e então quando o tocador usava o instrumento era ecoado, em vez de notas, o segredo do rei macedônio. São lendas – ou não.



Quer mais histórias? Não conto; quero voltar à polêmica. Concordo e acho adequado que a moderação faz do homem um virtuoso. Eu por exemplo, sou imoderado em muitos casos. Não resisto a uma lata de leite condensado. Já li o mesmo livro, fora as consultas, 18 vezes; claro sinal de um distúrbio psíquico que não quero tratar. Quando entro no mar, nem se a Grace Kelly (só há uma mulher mais bela do que ela) me chamar eu saio antes de sentir a salinidade marinha impregnar meus poros, o que demanda tempo e compaixão.



A efeito de defesa explico que eu não capturo as palavras por aí ao léu. Não vou dizer, naturalmente, que elas vêm ao meu encontro porque aí sim é caso de internar. Pode parecer presunção dizer que as palavras, pela relação de afeto que mantenho com elas, sejam-me tão íntimas como a minha pele: são tão íntimas como a minha pele. Amo-as todas, até as feias como “catapora”; coloco-a no mesmo patamar duma linda como “Bélgica” ou seja, assim como um devedor contumaz não tem preconceito com gêneros de empréstimos, não tenho asco a nenhuma palavra, nem à palavra asco que me parece assim, meio asquerosa.



Críticos são sempre necessários. Todavia, não se pode criar animosidade onde deve nascer afeto, nem confundir consciência com concupiscência.





Escrito por Alex Menezes às 19h06


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