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Aluga-se Penção Para Rapazes

Nas madrugadas acontecem coisas deliciosas. Alguns crimes também é verdade. Mas os crimes ocorrem não para vitimar as vítimas (!) e sim para nos socorrer da monotonia.



Chegando da escola ontem (04/10), perto das 23 e meia uma cena marcante se afigurava, contundente, dessas que entram nos anais. Entrar nos anais é uma construção feia; vou apagar. Não vou apagar. O computador não tem branquinho e estou cansado para procurar teclas de apagar. Leia anais e pense anuais.



Voltando. A cena foi a seguinte: flagrei três personagens noturnos a violentar uma dessas leis sem eficácia: uma mulher, uma criança, um senhor. Neles em sis, nada de menos, na atividade que faziam, tudo de mais.



Pregavam nos postes da rua os seguintes cartazes: ALUGA-SE PENÇÃO PARA RAPAZES. Não pude me conter. Respirei fundo e fui ter com a mulher:



- Senhora, pensão é com s. Escrevendo penção com cedilha, ninguém vai querer alugar.


- Seu dôtô, quem mora em penção não sabe ler direito...



Menos por vaidade e mais por necessidade profissional uso gravatas e esse belo adereço croata confere a quem o usa um certo ar aristocrático; seja o usuário um devoto ou um assassino, fato que deve ter inspirado a futura hoteleira a me chamar de dôtô, assim mesmo, com dois chapeuzinhos. Logo eu que não tenho cara de nada.



Mas ia que ela tivesse razão? Vai que os moradores de pensões não saibam mesmo ler e por isso morem em pensões. Creio que a última preocupação de um pensionista seja com regras gramaticais, com a traiçoeira sintaxe. No cartaz, se anunciava: Treliche 100 reais. Beliche 150.



Por mais visionário que você seja, não poderá imaginar o sujeito lá, deitado no seu treliche, na agradável companhia de mais dois trelicheiros, todo entregue à arte da meditação, a elucubrar, a pensar nos motivos que levaram sua hospedeira a trocar a letra, ignorar a prosódia, não se ater que foram consumidas muitas mentes e tempo até se decidir que uma coisa é ç e outra coisa é s sem rabinho. E o homem, quase a levitar nesse raro momento de êxtase no fundo de um pensão que em nada lembra os Fundos de Pensão do governo que nem o governo sabe direito o que é, absorto, fechado em si, até ter um lampejo que o faça enxergar que nada valem as regras gramaticais: o segredo está em ver e saber entender.



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