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Albrecht Dürer, Autorretrato

Mais ou menos como Nicola Tesla, o pintor alemão Albrecht Dürer (1471*1528) tinha de si um conceito único e uma certeza plural: era um demiurgo.


Homem pleno do Renascimento, esborrava na sua pessoa as características do artista multifacetado, capaz de ir da perspectiva à geometria, da arquitetura à pintura com o talento a se digladiar em saber em que área residia a excelência. Era em todas.


Este autorretrato tem o caráter do tempo, i.e, a preposição de, em não alcançando a santidade pela carne, querer alcançá-la pela estética. Dürer faz de si um Cristo moderno, que rompe com as distinções em voga à época. É um Jesus lindo, até meio dândi, e diferente da maior parte dos retratos de Cristo que vigoraram até pedaços do século XVIII, é um homem másculo de traços nórdicos, destoando do efeminado e frágil Filho de Deus que a tradição pictórica católica impingiu a todos nós.


O olhar grave, beirando uma agressividade temperada com brandura, nos diz que estamos diante de um homem de atitudes viris, a sondar as fraquezas do espectador.


O detalhe pungente da mão com o dedo a apontar para cima (clara referência à tradição italiana) pode remeter também à uma homenagem ao seu irmão. Na lenda, Dürer e o irmão escolhem com uma moeda quem trabalharia nas minas de carvão para financiar os estudos do vencedor, em Nuremberg. Vencedor, Dürer se tornou célebre e ao tornar a casa, quis pagar os estudos do irmão, cujas mãos, carcomidas pela artrite pela dura labuta nas minas, não podiam mais pintar.


Sem segundo plano, a tela quer deixar clara só uma mensagem, um só foco: a celestialidade da figura. Os cachos em cascata evoluem numa ordem linear e refletem luz apenas nas semi-argolas, e mais, não são angelicais, como os de Leonardo Da Vinci, antes, evocam uma singularidade terrena, já que talvez a intenção do artista tenha sido a de desumanizar o divino. E isso se torna evidente pela luxúria do pós-moderno cardigã (criado no séc. XIX) escarlate, cor símbolo das regiões mais internas da terra.


Albrecht Dürer, foi um marco do flamenco, um gênio cuja perícia faz desbotar o que pode haver de mais sagrado no profano.

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