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A Separação

O filme A Separação, do diretor persa Asghar Farhadi, virou sensação entre cultuadores de cinema e apaixonados eventuais. Filme iraniano virou clichê para fitas “cabeça”, onde não se pode mascar gomas porque a assistência chia. Mas este guarda algo de sensitivo em cada frame.


Além da história bem construída, um fator técnico alarma a condução do filme: a câmera vertiginosa que solapa cada fração do drama e injeta na pele de cada personagem uma sensação de nudez, metáfora perfeita à indumentária carregada das mulheres dessa parte da Ásia.


Simin (Leila Hatami, espetacular) é uma jovem e ambiciosa esposa que vê na chance de uma autorização temporária para deixar o Irã (Irã!); é um meio de fugir ou do tédio do casamento e mais sutilmente da opressão política levemente pincelada pelo diretor para não magoar os aiatolás sanguinários. Ocorre que Simin encontra a oposição do marido Nader (Peyman Moaadi), que obscuramente não quer sair do país, não se sabe se por medo da mudança ou pelo genuíno e terno motivo de cuidar do pai, terminal de Alzheimer. É o primeiro indício de grandeza moral que encarna todas as personagens: a renúncia do bem-estar pela “obrigação” de fidelidade ao correto.


Para piorar a situação, Nader contrata uma mulher para cuidar do pai e esta, grávida, num incidente perde o bebê e o confronto entre sua família e a do patrão coloca em xeque todos os conceitos sobre moralidade, honestidade e, sobretudo, religião. É a ética que conduz o filme até seu desfecho inesperado.


É um filme que não têm vilões, ou antes, é o ambiente e as orientações morais que confundem os envolvidos e o próprio espectador numa trama de sugestões e de dúvidas, que reforça a franqueza das pessoas quando confinadas entre a possibilidade de um benefício e a violação de um preceito religioso --- e trata-se delicadamente de uma temática religiosa, não apenas comportamental, de fuga e de egoísmos.


A filha que rechaça o pai ao confrontá-lo com a verdade que será decisiva para formar e amparar sua escolha entre ir-se embora com a mãe ou ficar com o pai e o avô moribundo é de uma tensão digna dos grandes mestres. O final em suspenso deixa claro que não é de certezas que se compreende as escolhas, mas de intuição, de coragem e de vontades, elementos que podem ser encontrados dentro de qualquer um de nós.

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