• ABM

A Lua Enluará o Mar




“Se eu tivesse elevado a minha voz desde o começo em vez de me calar em todas as línguas do mundo..., vendo passar os bem-postos da sociedade, os apaixonados do seu tempo, pintando-os, analisando-os – os marginalizando”.


Umedeci os olhos ao ver esse trecho da biografia de Van Gogh que ora leio escrita pela inglesa Viviane Forrester. Não sei, dá uma dor, leitor!, uma sensação de impotência ante a crua realidade da vida, a infinda soma de infortúnios, as limitações que nos oprimem, os desmandos dos mais fortes,...


Sinto cada vez a impotência florescer diante da razão, a tecnologia substituindo a fé, homens desprovidos de coração, alguns que não respeitam sequer a lei da gravidade que suponho estar débil diante do ímpeto humano, a ciência imperando e sufocando os corações.


Mas, assim como o texto anterior era o de sexta-feira, o dia da alegria, este de segunda-feira, não pode ser o da melancolia. Vamos combinar uma coisa:


Num mundo de faz de contas, todas as pessoas são felizes. Uma vez, andando com um ectoplasma na orla do oceano Atlântico, cantamos “João e Maria” música do inesquecível Sivuca, letra do (....) Chico; primeiro o ectoplasma, com a voz própria dos ectoplasmas, confundida com o enluarar que erguia naquele líquido arisco uma estrada amarela no razo daquele mar crespado, mar de borbulhas, revolto, mais caos do que mar; o mar quando rebenta na areia, deveria ser chamado de efusão, e o ectoplasma cantava agora eu era herói e o meu cavalo só falava inglês e eu ia já produzindo esse texto de agora, 30 anos atrás, que foi concebido naquele dia, e precisava apenas daquele pensamento de Vincent, de ficar mudo em todas as línguas do mundo. E o ectoplasma a noiva do caubói era você além das outras três e muito mar vindo rebentar no continente, o mar que devolvia o mar; sinto agora um incômodo, como os pés umedecidos e é a sensação do mar causando alucinações agora era fatal que o faz de conta terminasse assim pra lá deste quintal era uma noite que não tem mais fim...


E a gente foi cantando assim, pela vida afora, a lua de companhia, o traçado que ela descrevia no negro do supremo mar era a sublimação da visão sobre os demais sentidos, fazendo daquela pequena-efêmera, rara felicidade, a felicidade de todo o mundo condensada ali, espremida entre nós, como se fora o átomo que deu origem a todas as coisas.


Eu, o texto agora findo, me sinto mal, até grotesco, quiçá envergonhado por conduzi-lo ao equívoco; o que parece uma ode à felicidade é na verdade um monumento de palavras ocas erigido em memória à melancolia.


Video de Jõao e Maria: delicie-se.


http://br.youtube.com/watch?v=qGCL-CK_yDc




Escrito por Alex Menezes às 18h13


Posts recentes

Ver tudo