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A Juíza, a Senhora e o Pokemon



Por conta da minha ex-futura profissão tenho de fazer coisas aborrecíveis, como assistir audiências. E lá fui eu, a cara no molde duma carranca, enfrentar juiz, réu, autor, escrevente, autos dos processos, a monotonia.



Era uma juíza. Trajada quase à (moda) esporte e a beber em plena audiência um suco de morango. Devia ser de morango pela cor e pela cara; pois a cada gole ela fazia uma cara que só quem toma suco de morango pode fazer.



Remoldei a cara de carranca numa cara de alegria quando li os autos do processo que relato agora:



Uma senhora comprou um DVD do Pokemon. Era presente para o filhinho de oito anos. Chegou em casa, colocou o filme e foi banhar-se. Minutos depois, relata os autos: “a genitora foi chamada aos gritos pelo filho;” o menino, ainda tenro para essas coisas, via em vez do desenho animado, cenas de sexo explícito. Era um filme pornô. Qual não foi o pavor da boa senhora.



Como sabem, gosto de imaginar as coisas acontecidas:






- Genitora! Genitora! Meus Pokemons estão pelados! E não estão amarelos! Estão vermelhos! Genitora! Genitora! Uma pokemona está sendo atacada! Genitora, os pokemons são Ets! Estão com as espadas grudadas no corpo!



A senhora não teve dúvida, moveu ação por danos morais contra a editora que vende o produto, pois o comprou em loja idônea, e lacrado. Pior, diz ela, traumatizado, o menino não quer mais assistir as aventuras dos seus heróis prediletos.



Quando o Titanic naufragou na madrugada de 12 de abril de 1912 (salvo engano), os engenheiros aposentaram o aço usado no navio que, depois se soube, era inadequado para navegar naquelas águas gélidas.



Em toda tragédia há sempre algo positivo que sobra. O garoto, chocado com as cenas impróprias, tem razão em não querer mais ver aos filmes dos Pokemons. Na sua cabeça de criança, o que pode vir a aparecer numa nova sessão?



Eu se fosse a juíza, condenaria a editora a pagar em vez de meia dúzia desses salários minimíssimos para a senhora, que positivamente serão consumidos em cosméticos para o corpo e para a alma, faria a companhia indenizar o garoto (a verdadeira vítima) com livros educativos. O fim do mundo se dará quando alguém ao comprar uma cartilha didática, encontrar ensaios da Playboy.




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