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A Hipocrisia e o Chico Buarque Cubanófilo

“E há Chico Buarque, o terror da propriedade (sic) e dos casamentos privados (!) do Leblon. Sim a nossa Palas Athena da MPB tem até um retrato no museu da Revolução de Cuba, tal é a admiração que lhe devota o “comandante”. O povo prefere Nelson Ned e a novela (A) Escrava Isaura. Entendo: deve identificar o dono da ilha com Leôncio o bandidão senhor de escravos. “Chico” (aspas?), essa entidade acima da moral e, quiçá, dos bons costumes, faz lirismo voluntário com sangue involuntário das vítimas de Fidel. Um talentoso idiota moral.” – Revista Veja, edição 2049 páginas 78-79, autor da façanha: Reinaldo Azevedo.


A crítica rasteira do senhor Azevedo à inclinação política do senhor Francisco Buarque de Holanda reflete um pouco da mentalidade conservadora da elite intelectual do país. Não sei se ele teria o dom de usar igual rigor para compor um libelo sobre a revista que publica suas diatribes; o veículo jubila-se de sua independência editorial, mas defende causas heterodoxas, para não dizer imorais, como o controverso caso da fábrica de balas – de revólver.


Noutro ponto do artigo, entoa Azevedo: “O Comandante (Fidel) é 435,86 vezes mais assassino do que os generais brasileiros que encheram de metáforas humanistas a conta bancária de Chico Buarque”.


Tudo estaria certo e equitativamente amoral se a sociedade empresária a que ele presta seus serviços também não se socorresse do idolatrado dinheiro público, em forma de fomento em anúncios; das 130 páginas da referida edição, duas estatais contribuíram para o salário do articulista. Chico fez música com as barbáries do regime militar e com elas auferiu renda? Isso o torna um herói e não um parasita pensante. Se o Buarque defende em Cuba o que condenou no Brasil isso é coisa que nem admira nem consterna: uma coisa é ser genial num ofício, outra é ser homem: o maior gênio de todos os gênios ensinou que “todas as contradições estão no homem”. E a contradição e não a biografia ou a genialidade liga Chico Buarque a Azevedo.


Querer que o artista reflita na vida civil o que faz na arte é de uma pequenez medieval. O cantor tem todo direito do mundo de apoiar o que lhe aprouver. Usar os seus “deslizes” pessoais, como o episódio da morena do Leblon para diminuí-lo como ser humano é de uma covardia atroz, uma má-fé que faz corar nazista, típica da (má) elite arrogante que abisma o país entre os “sem” e os “com”. Azevedo não é estreante nesta arte vil; Silvio Romero, crítico literário do século XIX, dizia que Machado de Assis transferia sua gagueira para a literatura que produzia. Como se vê, a pequena-burguesia tupiniquim usa dos mesmos artifícios para reduzir o que de melhor se produziu em termos musicais e literários dos últimos cem anos no Brasil.


Azevedo aprecia a erudição, usa-a para coonestar suas idéias, é um intelectual de boa estirpe. Não obstante, eu poderia contrastá-lo com a mesma erudição, citando Demóstenes, inquirindo-lhe se era correto o conservador orador ateniense ironizar o avanço dos “bárbaros do norte” na figura do Rei Felipe e depois de seu filho. Talvez Azevedo fizesse coro ao idiota do Demóstenes, apoiando sua cegueira intelectual.


Caro senhor Azevedo, ainda que o senhor seja um paladino da justiça social, guardião-mor da moral e dos bons costumes, insigne lavrador da ética civil, pagador exemplar de impostos, irrepreensível cidadão repressor de libido e que tem horror à concupiscência; prefiro um Chico Buarque decrépito à sua farsesca hipocrisia forjada e decadente.




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