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A Fábrica de Chicote

– Sim, produzimos e vendemos chicotes, mas não se pode fazer uso deles, ao menos para o propósito comum para o qual ele foi criado.


– E se eu o comprar e o usar?


– Infringirá uma lei marcial, cuja pena é uma mínima sanção.


Se um chicote não puder ser usado para o seu fim, que serventia poderia o homem encontrar nesse objeto cuja origem é puramente filosófica e transcendental? A contenda entre o comprador do chicote e o fabricante teve lances de ósseo pugilato verbal:


– Soa-me extravagante e excessivo uma fábrica que proíbe o emprego daquilo que fabrica.


– Não é caso de extravagância. Um chicote que não chicoteia serve para combater no homem o mal que ele reprime desde o ventre materno até aquele outro ventre, chamado túmulo. O mal pulsa dentro do homem; o chicote estanca o pulsar.


A aquisição de um belo exemplar com cabo de madrepérola pelo indigitado homem poderia trazer-lhe aborrecimentos gigantes, mesmo assim decidiu pela compra.


– Lembre-se: não se pode fazer uso da peça, sob pena de minimizá-lo.


– É minha; daqui por diante sou o senhor deste soberbo invento. – e saiu da fábrica, produzindo um silêncio magnífico.


O homem desembrulhou a embalagem e admirava o chicote como um noivo deve admirar a noiva que se despe lentamente; caminhava inebriado como quem recolhe despojos duma guerra e, entre saciado e insaciável, sentia ferver nas entranhas a urgência para aplicar o chicote no primeiro passante que lhe ousasse dirigir o olhar ou tirá-lo daquele transe.


– Não compreendo as leis deste absurdo mundo – disse ele ao encontrar na rua um engraxate negro como a graxa –; é me dado o direito e o poder para adquirir essa linda peça, mas me é vetado o uso. Não é razoável, mas cômico. – e estalou cheio de vigor a ponta do chicote no lombo vulnerável do engraxate, que gemeu com uma dignidade tão pura, que só é possível ser encontrada nos inocentes.


Imediatamente sobrevieram sobre o homem as forças superiores controladas pela Fábrica. O levaram ao tribunal e o condenaram, e o executaram e o reduziram ao mais fragmentário resíduo que um espécime humano pode atingir. Fora, enfim, reduzido à mínima potência.


A Fábrica tinha suas regras; era tolerada a compra, jamais a infração, punida com exemplar pontualidade.

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