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A Cidade não Mora Mais em Mim

Tudo tinha: arroz ervilha e açafrão; depois o milho, a mandioquinha, as verdes folhas do manjericão. Borbulhava no caldeirão o feijão, meio assim, repleto de ferro e inflação; noutra ponta um caleidoscópio de cores várias: fino produto da seiva rural. O restaurante a quilo que freqüento me entrega tudo isso por 11, 12 e na ausência do café matinal, a até 14 reais. Eu não produzo nada disso. Aliás, homem urbano que sou, julgo-me o protótipo da ignorância do campo: por anos cri que o picles nascia no pote de vidro do Zé do Bar, o balcão dos bares como latifúndio fértil. Bons tempos!



Os gregos, alucinados por implantar o Helenismo também na botânica, quando estavam na Pérsia, teimavam para que a bela hera lá florescesse: o solo a repelia porque não ela tolera o calor, pois sendo planta que se aconchega no frio, fenecia no país dos xás, porque ali a terra queima. Princípios canhestros da globalização.


Consta no site da FAO que hoje 1% das famílias norte-americanas que vivem no campo sustentam 99% das famílias que vivem na cidade. O povo citadino desconhece os mecanismos que fazem a semente prorromper da entranha rasa da terra, florescer, captar do sol a energia que a torna apetecível e finalmente chegar ao prato que serve a todos sem discriminação.


Um desses sociólogos iluministas ensinou o brasão da “divisão social do trabalho”, com o fim de fazer da vida gregária uma experiência tolerável; mas o que ora ocorre já é demais; flerta com o colapso civil esse êxodo de campesinos para a urbe que bufa, geme, e dalguma forma expele o excedente no tradicional artifício do homicídio, carrocídio, guerrilhas e milícias. O que parece num primeiro momento uma crise institucional é um meio que a natureza invisível reguladora do mundo encontrou para contrabalançar essa desastrosa troca de lugar.



Algo precisa ser feito. Parece que no Brasil cerca de 85% da turma vive na cidade, de preferência perto de um metrô; como é sabido que não há metrôs para todos, os que não podem vão se afastando, se afastando... O sonho do homem urbano, o paulista em particular, é que a Av. Paulista compreendesse 12 mil km, como a Muralha da China.



- Onde você mora?


- Na Paulista, no Km 9826...


O moderno homem urbano tem sede de concreto, sorve-o mesmo sólido; anseia pela sirene, sente falta da fuligem quando a fuligem é escassa, prefere o acúmulo de pernas onde só caberiam orelhas, faltando algum desses ingredientes, a vida se torna aborrecida, temperada de monotonia. O legal é o arruído, o buzinaço. Está impregnado na alma dele. De onde e como vem a semente que ele, por enquanto, amanhã comerá, é desnecessário saber e refletir. A ciência, sempre a ciência, fará com que no futuro se alcance absorver os nutrientes do simples ar, ainda que este até lá seja rarefeito; mas e daí? É certo que esse detalhe curioso lhe acentuará o sabor...





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