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A Catarina e o Adévogado

Como é sabido por todos que teimam em freqüentar esta coluna, não me espanto com mais nada nesse mundo. Tão calejado estou, que quando eu for pro outro mundo (há de haver outro mundo) não me surpreenderei com nada de estranho que por ventura venha a existir lá. Deixarei espantados os outros mundistas.



Dia desses, no Rio Grande do Sul, um sujeito que dirigia seu carro sem a CNH, teve o veículo apreendido. O que fez o condutor? Simples, entrou com um pedido de hábeas corpus. Hábeas corpus. Quando o legislador, cheio de amor maternal, teve a luminosa idéia de criar esse doce instituto jurídico para salvar o couro dos infratores, não imaginou que ele seria usado para tão sublime objetivo.



A expressão latina quer dizer literalmente “que tenhas teu corpo” ou em versão livre “solte o preso antes do julgamento”. Nada mais. Por mais boa vontade que se tenha, é difícil imaginar a palavra preso sendo usada por outro agente que não seja humano. Vejo o carro, esse ser humano de rodas, desembestado, usando do seu livre arbítrio de carro, por aí, cometendo delitos. E toca um hábeas para livrá-lo da cana. Se o carro ao menos for movido a álcool...



É o hábeas-carro. Não me importo com o condutor que terá de andar sobre seus pés. Nem com o carro; vira e mexe ele anda a esmagar meus semelhantes por aí. O que eu queria, verdadeiramente, era encontrar a mamãe do Dr. Adévogado que impetrou o pedido. Iria me dirigir com toda delicadeza a ela:



- Minha senhora, sabe o que é, o seu filhinho...


- O que fez de errado meu Juninho?



Hábeas-corpus para libertar carros. Aberração profissional não é privilégio exclusivo de advogados; de quando em vez, médicos esquecem tesouras e outros objetos mais delicados no ventre de algum paciente que não deseja uma tesoura integrada às suas entranhas. Engenheiros edificam prédios com areia de isopor, enfim.



Lembro de um mecânico amigo de meu pai. Um homem delicado, talhado para aquele ofício, a graxa era seu cosmético, andava com chaves de fenda, grifo, alicate, macaco, tudo no bolso, até em festas de casamento. Levei uma Kombi que eu tinha para ele arrumar, escapava as marchas, ela era nova, não tinha assoalho nem pára-brisa, era uma Kombi muito engraçada/ não tinha freio/ não tinha nada, chamava-a de Catarina, eufemismo para Katraia. Dias depois, voltei para pegar meu tesouro, dei umas voltas para testá-la:


- As marchas continuam escapando.


- Calma. Elas precisam se acostumar.



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